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Os caminhos de Abril

Outubro 3, 2007
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Dois rostos anónimos…

Mário Contumélias (texto)
Alfredo Cunha (fotos)

Dois rostos. Dois rostos anónimos, parados no coração da manhã. Dois jovens prontos para o combate da Liberdade. Sabiam ao que vinham e por isso vieram. Cuidadosos, acoitam-se nas escadas do urinol, do lado direito da Praça do Comércio. Nem as armas se vêem. Só os capacetes lhes dão um ar bélico. Talvez, também, a expressão circunspecta, preocupada, do que se vê à esquerda na fotografia, possa mostrar que o momento é sério.
Muitos jovens como estes acompanharam os “capitães de Abril”; havemos de vê-los em próximas fotografias. Agora, a objectiva sustem no tempo apenas estes dois, surpreendidos por detrás do que resta de duas barras de ferro partidas, do gradeamento do urinol. Serenos, esperam.
Como eles, outros combatentes da Liberdade anseiam, por detrás de outras grades, nas prisões, que chegue a hora. Ainda não sabem, mas a hora chegou. Com o raiar da manhã, começa a nascer em Portugal “o país de Abril”. Daqui a pouco, sairão dos cacilheiros centenas de portugueses, muitos deles também desconhecedores de que está perto do fim, a liberdade vigiada em que vivem. Por agora, é a espera…
Com a farda de trabalho, na quietude do alvorecer, os soldados estão prontos. São operários da nova Descoberta. Mesmo assim quietos, dobram, o cabo de uma tormenta, que durou décadas. E fazem dele um Cabo de Boa Esperança. É assim no momento. Portugal abre a porta do futuro. O “país da desconfiança” está finalmente a morrer…
Trinta anos depois, na fotografia ao lado, dois outros jovens conversam. O cenário não é igual. Os urinóis da Praça do Comércio já não existem, engolidos pela remodelação do Terreiro. Para quem olha, as duas fotos parecem de locais diferentes. Não são. É a mesma Praça, o mesmo ângulo.
Aparentemente, o mais assustador que as duas imagens nos mostram é o “graf”, inscrito no banco onde se sentam os dois jovens, que hoje conversam, indiferentes à ameaça: Morte à Juve”. Mas é apenas uma bazófia. Algum “diabo vermelho”, que quis sublinhar a spray, a rivalidade com o grupo de Alvalade. Nada que se leve em conta.
Entre os dois momentos há um intervalo de 30 anos. Um único elemento de ligação permanece entre eles. A paixão que muito deste povo tem pelo futebol. E eles? Os jovens, de uma e de outra foto? Também serão adeptos de algum emblema? Não podemos saber. Sabemos é que os quatro são homens livres. “/Qual cor da liberdade?/, perguntava Jorge de Sena. E respondia: “/É verde verde e vermelha/”. Enganava-se este português ilustre. A liberdade também é azul. E amarela. E… A liberdade tem todas as cores com que se queira pintar a esperança.
Mas nesta manhã de Abril, a Liberdade tem a cor cinzento-esverdeado, com que se vestem os dois soldados. Os dois rostos que fitam.

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