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Os caminhos de Abril

Outubro 3, 2007
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Nevoeiro »»» A luz da libertação rompeu a bruma daquela madrugada
que ficaria na nossa memória

Mário Contumélias (texto)
Alfredo Cunha (fotos)

Evocar Abril, trinta anos depois. Durante trinta dias, reconstruir a memória, fotografia a fotografia. Percorrer os mesmos caminhos que dois jovens repórteres do finado jornal “O Século” fizeram nessa data mágica, que reinventou um país chamado Portugal. Que o devolveu a um povo, até então encerrado na bruma, encostado ao muro da Tradição; homens e mulheres com o estômago contraído pelo medo, fechados na arca do silêncio. Cinzentos. Tristes. Amordaçados.
Trinta anos mais velhos, reolhar locais por onde passou a Liberdade, procurando o rasto dela, surpreendendo o contraste, retendo-o na objectiva. Sempre exactamente dos mesmos locais, com os mesmos ângulos, à procura de interpretar as diferenças. Naquele dia foi assim; e hoje? Dar desta interrogação ao leitor os elementos disponíveis para uma descoberta pessoal. Desafiá-lo a folhear connosco um velho álbum de fotos cheias de sentido, lado a lado com as imagens de hoje.
Sem a preocupação do rigor histórico, sem submissão a qualquer cronologia, correndo o risco do erro. Mas sempre sem malícia. Talvez contando estórias. Talvez como segue.
O calendário confirma a data: dia 25 de Abril, ano de 1974. Ainda não amanheceu. O telefone toca em minha casa. Do outro lado, um dos chefes diz-me: veste-te e vem para o jornal. Precisamos de ti. Vou. Chegado à Redacção, encontro o Alfredo Cunha. O chefe diz-nos: parece que há por aí umas movimentações militares. Fala-se na Praça do Comércio. Vão lá ver. Avançamos excitados. Tensos.
Há realmente militares. Estes, os da foto, estão no cruzamento da Praça com a Rua da Ribeira das Naus. Dois encostam-se displicentemente à esquina do edifício do Ministério do Exército. A manhã nasce brumosa. Há pouca luz. Mal se vê o Tejo, ainda envolto em discreto nevoeiro. Os soldados são jovens e conversam. Falarão de quê? Que estará a passar-se? Têm as armas erguidas. Nada neles ou nelas respira agressividade. O único disparo é o da máquina fotográfica, que captura o instante. Abril chegou e ainda não o sabemos ao certo. Veremos adiante.
Hoje, a mesma esquina está diferente. Parece ter sido engolida por apressados automóveis. Há semáforos onde antes estavam soldados. Três dezenas de anos não melhoraram a paisagem urbana da Praça do Comércio, mas a placa que a identifica continua lá. O dia está cinzento. Chuvisca. As obras do Metro escondem o rio dos nossos olhos ávidos. Mas a maior diferença entre uma e outra foto é a Liberdade. Não se vê, mas há trinta anos passou por aqui. E ficou. Não mais a deixaremos ir-se embora. Este desejo colectivo, partilhado também não é visível. As fotos não mostram tudo. Muitas vezes, “o essencial é o que não se vê”.

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