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Quase no Carmo

Outubro 3, 2007

Quase no Carmo

Mário Contumélias (texto)
Alfredo Cunha (fotos)

As forças de Salgueiro Maia estão quase no Largo do Carmo. Faltam escassos metros, que serão feitos já não entre alas de populares, mais ou menos disciplinados, que se limitam a gritar “vivas” e a aplaudir, mas quase pelo meio das pessoas. Porque são muitos os que acompanham, lado a lado, os militares; que se misturam com eles, que atravessam pelo meio deles.
Ver o que se passa já não é bastante. Quer-se mais do que isso; mesmo sem farda, sem capacete, sem armas, os cidadãos anónimos querem participar. Estar no meio dos acontecimentos. Agir.
Faço a subida para o Carmo no meio de populares e soldados, procurando absorver tudo o que se está a passar, com um companheiro de profissão, como eu jornalista, em serviço de outro jornal. Um pouco mais ao longe, à esquina, vemos um soldado da Guarda Nacional Republicana (GNR), espingarda mauser ao ombro… O jornalista que encontrei na subida sugere-me que ataquemos o guarda e lhe tiremos a espingarda, para o entregar aos soldados…
Conto isto porque, embora se trate de um caso singular, diz bem do espírito que se vive ao fim da manhã, do dia 25 de Abril de 1974. Todos querem tomar parte no que se está a passar. Ninguém quer ser mero espectador. Ninguém parece aperceber-se de que, de repente, pode ver-se no meio de uma luta e ser vítima de uma bala perdida. O medo não é para ali chamado. O golpe militar transformou-se em revolução, como as horas vividas no Largo do Carmo, frente ao quartel da GNR, deixarão bem claro.
Para além dos populares que se misturam com a tropa, há também pequenos grupos, quatro a cinco pessoas que se juntam, e comentam o que está a passar-se. Assegurado como está, desde a madrugada, o controlo da RTP, do Rádio Clube Português e da Emissora Nacional, os comunicados do Movimento das Forças Armadas (MFA) acompanham a marcha dos acontecimentos. Informam os portugueses sobre o ponto da situação em todo o país. Dão conta dos propósitos dos militares do MFA. Tudo isso, mais o que se vê nas ruas de Lisboa, dá muito motivo de conversa.
É deste clima de alguma confusão, misturada com muito interesse; desta inesperada convivência participativa entre militares e civis, a caminho do palco onde cairá definitivamente o pano sobre o regime, que esta foto nos dá claramente conta. Mostra como fez a liberdade o seu percurso, não apenas no cano das espingardas, mas no coração de cada homem, de cada mulher. De todos os que quiseram viver, na rua, o “25 de Abril”.
Trinta anos depois, a foto dá-nos uma cidade mais limpa, mais atinadinha. Para além dos inevitáveis automóveis, a rua está praticamente vazia. Só um cidadão vai no seu caminho. Basta olhar para ele, mesmo estando de costas, para perceber que tem idade para ter andado por aqui, trinta anos atrás. Será que o fez? Será que tem, ainda, guardadas, as emoções, como nenhumas outras, que esse dia produziu em nós?

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