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Salazar também caiu

Outubro 3, 2007

Salazar também caiu

Mário Contumélias (texto)
Alfredo Cunha (fotos)

No chão, reflectindo a luz da janela, a foto do “Senhor Presidente do Conselho, Dr. Oliveira Salazar”, como, em vida do ditador, se escrevia e dizia cerimoniosamente, nos meios de Comunicação Social. Era ele o “pai da pátria”. Quem dizia o que os portugueses podiam ou não podiam fazer. Aquilo para que estavam, ou não estavam, preparados. Era ele o senhor inquestionável, do poder absoluto.
Filho de camponeses, via Portugal como uma aldeia. Pobre, chegou a frequentar o seminário, mas saiu. Contudo, tinha uma rígida formação católica. Professor de Direito, em Coimbra, deixou a Universidade para ser ministro das Finanças. Em 1932, foi nomeado presidente do Conselho. Manteve-se no cargo 36 anos, até 1968, quando a doença o incapacitou.
Foram 36 anos de poder despótico, exercido por um homem autoritário, conservador, retrógrado. Dizia-se dele que não tinha ambições pessoais, que só lhe importava o bem de Portugal e dos portugueses. Mas, apesar da voz mansa, quase meiga, com que se dirigia a todos e fazia os seus discursos, combateu sem piedade os que ousavam opor-se-lhe, esmagando do simples operário ao português mais ilustre. Quem não estava com ele estava contra ele e tinha de ser travado por qualquer meio. A PIDE era o mais tenebroso dos seus instrumentos.
Era surdo à revolta, que crescia entre os portugueses, pelo menos a ponto de tirar dela ilações que o levassem a alterar a sua política; ele sabia, melhor do que nós, o que nos convinha; o que era bom para o país. Igualmente, fazia ouvidos moucos às pressões internacionais, no sentido de liberalizar o regime, e, sobretudo, aceitar pôr fim ao império colonial.
Só a doença o venceu. Mesmo assim, ninguém parece ter tido a coragem de lhe dizer em vida, que já não comandava o país. Morreu, em 1970, com 81 anos, talvez na ilusão de que governava ainda, este presidente-rei absoluto, que achava Portugal um país triste, e detestava a alcunha de “Botas”, porque aludia a um defeito físico, que o obrigava a usar botas ortopédicas. Morre, agora, uma segunda vez, quando retiram a sua fotografia da parede, tal como fizeram à de Marcelo Caetano, que lhe sucedeu, mas que, para os “ultras”, nunca esteve à altura da herança.
Na foto de baixo, um cidadão com idade para se lembrar de Salazar, está junto a um eléctrico, onde avulta um anúncio da coca-cola. A mesma coca-cola que, em vida do ditador, era proibida em Portugal, como tanta outra coisa. O presidente do Conselho levava ao pormenor as consequências das suas simpatias e antipatias. Diz-se que chamava “general coca-cola” a Humberto Delgado, o homem que teve a coragem de o afrontar e de afirmar que o demitia, se fosse eleito presidente. E que “perdeu” as eleições e acabou assassinado pela PIDE. Salazar não admitia oposição..

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