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Todos são actores

Outubro 3, 2007

Um quadro de guerra

Mário Contumélias (texto)
Alfredo Cunha (fotos)

É ainda a Praça do Município que vemos, agora de um outro ângulo. Cinco soldados cosem-se ao chão, protegem-se, mas de armas apontadas, prontos a fazer fogo, se necessário for; se a ordem vier. Um sexto, um pouco mais adiantado, protege-se também, usando o rodado da camioneta militar. Um sétimo, mal se vê, à direita na foto, no umbral de uma porta. É um quadro de guerra, mas não chegará a haver guerra.
São também dois poderes, que se confrontam. Um poder negativo, que já começou a cair, ainda que tente, desesperadamente, queimar os últimos cartuchos. Outro que emerge, e cuja natureza ainda se não conhece, mas que refundará a Liberdade. Lisboa é um campo de batalha, mesmo se não há aqui batalha. A cidade inteira é um palco, onde se joga uma representação total; onde todos são actores, como se confirmará em próximas fotos.
A ordem e a desordem enfrentam-se, mas as suas posições estão invertidas. A ordem, uma nova ordem, acompanha os sete jovens desta cena, a que não vemos o rosto, mas que vieram para desafiar o regime. A desordem envolve a fuga, a derrota dos senhores do silêncio, dignatários prepotentes do obscurantismo, que sufocou Portugal durante quase cinco décadas.
O país dominado está prestes a sacudir, de vez, o jugo. A contestação, a revolta, desta vez trouxe armas. Está pronta para discutir a força, com a força. Descobre-se com a razão do seu lado. Protege-se, mas vai em frente. Os corpos, colados ao chão, estremecem com um desejo de vitória. A objectiva do repórter fotográfico é uma testemunha muda do momento. Uma fronteira, fixando a acção nos limites físicos do instante. Reconstruindo-a nas ruas da memória.
Todos os lugares mudam. Todos os lugares se recompõem. A Praça do Município será, hoje, um lugar de memória? Por ali, passou a Liberdade, numa manhã cinzenta, de um dia de Abril. Vestia de cinzento. Usava nas mãos as mesmas armas com que se morria em África. Com que se matava. Vinha acabar com a guerra. Vinha rasgar todas as mordaças. E isso fez.
A foto de baixo, tirada 30 anos depois, não evoca nada disso. Mostra a praça como um "não lugar", carente de sentido social. Há um agente da Polícia que esclarece um cidadão, duas ou três pessoas que passam, mais nada. Onde está Lisboa? Onde está o povo? Será que a cidade é, agora, a urbe nua e fria, que incomodadamente a imagem sugere? Será que a Praça do Município é hoje um lugar de esquecimento? Apenas um sítio de passagem? Um corpo nu, despido de dimensão ritual?
No dia 25 de Abril de 1974 a praça foi, como raras vezes na sua história, um lugar de emoções. Por isso aqui damos delas testemunho. Há coisas que não devem ser esquecidas.

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