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Um cartaz mentiroso

Outubro 3, 2007

Dois poderes e um palácio

Mário Contumélias (texto)
Alfredo Cunha (fotos)

A autometralhadora guarda o palácio de Belém. Sobre ela, um soldado faz o “V” da vitória. No interior do blindado, outros militares. Um deles fita a objectiva, que captura o instante. O “25 de Abril” cumpriu-se. A Junta de Salvação Nacional já apareceu na televisão, assumindo o rosto do novo Poder, apesar dos seus membros pouco ou nada terem feito para derrubar o outro. Os velhos senhores parecem ter dado lugar a novos senhores. A ideia de um Poder centrado na hierarquia militar preocupa alguns, mesmo nestes momentos que ainda são de festa.
Porém, o regime deposto é já “o antigo regime”. Apesar de ainda não terem decorrido 24 horas sobre a queda de Marcelo Caetano e dos seus ministros; ou sobre a rendição do presidente Américo Thomaz, que parecia ocupar um cargo vitalício, tudo o que eles representavam é já passado.
Por isso, é estranho, anacrónico, o cartaz na parede, por detrás do gesto vitorioso do soldado. Cartaz onde é claro, também, um “V”, que encerra simultaneamente um apelo ao voto e uma convicção na vitória, natural em quem se candidatava pelo regime, num país sem eleições livres, nem verdadeiro combate político. O que o cartaz pede aos cidadãos é um voto redundante na Acção Nacional Popular (ANP), de facto, materialmente, o partido único.
Mas o mais inesperado, quando se olha para o cartaz, é a sua dupla mensagem. “Vote progresso em paz”, diz-se à esquerda. São duas mentiras numa. Portugal não tinha, nem uma coisa nem outra. Isolado do Mundo moderno, atrasado no tempo, a maior parte do país vivia no passado, sem perspectivas de “progresso”, que o encaminhassem para o futuro. Envolvido numa guerra colonial, em três frentes africanas, o país não vivia nem viveria paz.
“Vote promoção cultural”, diz-se à esquerda. Outra mentira. Votar ANP, votar Marcelo Caetano, era votar no responsável político pela ausência de liberdade de expressão, pela existência de uma censura férrea, que se abatia sobre a Imprensa, como sobre toda a criação artística. Do Cinema à Literatura, da Pintura à Poesia, da Música ao Teatro, a Cultura, em Portugal, vivia de meias palavras e de subentendidos, procurando “fintar” a censura, para evitar a amputação ou a proibição das obras. Por tudo isso, o regime tinha os dias contados. Só podia cair. Caiu. Já ninguém responderá ao apelo do cartaz.
A foto de baixo, trinta anos depois, é ainda, hoje, uma sugestão de liberdade. A jovem como que dança, envolvida na brisa da tarde, no mesmo local de ontem, perto do mesmo palácio, onde está agora um presidente eleito democraticamente pelos portugueses. E quem discordar da sua acção, ou da acção do Governo, não precisa de escrever nas entrelinhas. Não há livros proibidos. Peças de teatro cortadas. A censura morreu. E uma jovem dança, na morna brisa do entardecer. A liberdade continua a passar por aqui.

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