Skip to content

Um olhar para o amanhã

Outubro 3, 2007

Um olhar para o amanhã

Mário Contumélias (texto)
Alfredo Cunha (fotos)

O protagonista desta foto é a face, o olhar deste menino-soldado que, com outros dois companheiros de armas, se resguarda entre uma carrinha da Polícia de Segurança Pública (PSP), e as colunas do Arco da Rua Augusta. É certo que a imagem é forte, no seu todo. Densa. Diz-nos que há, ali, três homens preparados para a luta. Até as espingardas automáticas que empunham, as “G3”, estão claramente prontas. Não visam um alvo, mas também não apontam o chão; não descansam nas mãos que as empunham.
Mesmo ao lado, pode haver inimigos. Por perto estão as instalações da 1.ª Divisão da PSP, que ainda não se rendeu, no instante em que a objectiva do repórter fotográfico capta a imagem. E este percurso que fazemos, ao longo destes trinta dias, é uma tentativa de interpretar à distância, a interpretação que o jovem Alfredo Cunha fez em cima do acontecimento. Que viu ele? Que quis ele reter? Que história contou ontem, no passado? Que história conta hoje, no presente, ao leitor? Como se cruza, com uma e outra, a narrativa que é posta em palavras?
Neste caso, cruza-se na “ficção” de um olhar, belo e intenso. Também misterioso. Um olhar que vê longe, no tempo e no espaço; que busca o amanhã, mesmo se inconscientemente. Um amanhã estendido no tempo, e que começou a mostrar-se aos portugueses quando Joaquim Furtado leu, no Rádio Clube Português, por volta das 4.30 horas da madrugada, do dia 25 de Abril, de 1974, o primeiro comunicado do Movimento das Forças Armadas.
Três soldados de Portugal servem o país por vir, e um deles olha para o amanhã. Que é como quem diz, olha para o futuro e adivinha nele a Liberdade, cujo carreiro ajuda a abrir para nós, com as costas protegidas por uma carrinha da Polícia, que também, aqui, à entrada da Rua Augusta, não oporá resistência à marcha vitoriosa contra o obscuro Poder, que já começou a cair.
A foto debaixo, no mesmo local, fixou dois cidadãos na paragem do eléctrico, no passeio em frente ao Arco da Rua Augusta. Pela idade aparente, ambos terão vivido, de um modo ou de outro emocionados, os acontecimentos a que a imagem de há trinta anos se refere. Na paragem, há duas frases, seguramente de promoção a algum produto, que se enquadram muito bem na presente narrativa.
Os três jovens soldados, com capacetes de guerra protegendo as cabeças, são, não temos dúvida, “energia pura”. Contida. Preparada. Os dois menos jovens, que esperam o eléctrico, vivem hoje mais “à vontade”, não obstante os problemas que possam ter, do que viviam antes de a Liberdade ter começado, aqui, a abrir um dos seus caminhos mais emblemáticos, sob a orientação de um homem de valor, chamado Salgueiro Maia..

Anúncios
No comments yet

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: