Skip to content

Uma causa comum

Outubro 3, 2007

Sem receio das armas

Mário Contumélias (texto)
Alfredo Cunha (fotos)

Há metralhadoras no chão, pentes de munições ao lado. Três soldados, em poses descontraídas, mesmo algo displicentes. E há mais. Pela primeira vez, neste percurso que temos vindo a fazer, há povo expressivamente presente nas ruas. Que é como quem diz, muitas pessoas que desistiram de chegar a tempo ao emprego. Que resolveram esquecer as obrigações profissionais do seu quotidiano habitual, para ficar a acompanhar o que se passa. E estranhamente – num país até então mergulhado no silêncio censório, adormecido no medo da delação, governado pela repressão mais ignóbil – ninguém tenta impedi-los.
A adesão popular, sem receio das armas, faz daquilo que inicialmente é visto como uma iniciativa da tropa uma causa comum. Um acto de todos. Dá representatividade à revolta; confere-lhe base de apoio. O golpe de Estado militar começa a transformar-se em revolução. Deste momento em diante, todo o “25 de Abril” será feito sob a observação das pessoas comuns, que irão, cada vez mais, investir emocionalmente no que se está a passar. Participar. Mais que não seja, vitoriando, aplaudindo, acompanhando o avanço dos militares.
É este duplo envolvimento, que une cidadãos civis e cidadãos militares, que a objectiva de Alfredo Cunha regista aqui, pela primeira vez, de modo inegável. A manhã já vai, mais ou menos, a meio. Os comunicados do Movimento das Forças Armadas (MFA) já são conhecidos de todos; aqueles que não os ouviram, sabem da boca de quem ouviu o que realmente se está a passar. As palavras da rádio esclarecem o que se vê nas ruas. Já não há dúvidas. Seja o que for que aconteça, ninguém quer que se recue. Seja qual for o futuro, nada poderá ser pior do que antes. Mas é preciso que o regime caia mesmo. E são muitos os que querem presenciar essa queda.
Por isso, apesar dos apelos, expressos nos comunicados do MFA, para que a população fique em casa, em Lisboa cresce o número de pessoas que vem para a rua; não parará de crescer até ao fim do dia. A História entra na vida de cada um. Marca-a para sempre. Seja o que for que individualmente se sente, nunca mais será esquecido.
Trinta anos depois, a foto do momento presente mostra-nos uma Baixa calma. Calcorreada por gente que vive a sua vida com normalidade, sem sobressaltos. Não há soldados, metralhadoras, medo de dizer o que se pensa; mesmo que se pense mal. Que se seja crítico do actual regime, ou do funcionamento do sistema democrático. É assim quando há liberdade de ideias e da sua expressão.
Muitos dos portugueses talvez nem sequer saibam que, numa manhã de Abril, no ano da graça de 1974, Portugal viveu uma das maiores, se não a maior, das suas festas colectivas de todo um século. Quando a liberdade passou, exactamente pelas mesmas ruas, por onde agora passam os cidadãos que a fotografia mostra.

No comments yet

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: