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Uma resposta firme

Outubro 3, 2007

Três murros para a história

Mário Contumélias (texto)
Alfredo Cunha (fotos)

É a Rua do Arsenal, na manhã do dia 25 de Abril, de 1974. Visíveis, na imagem, estão os meios militares mais pesados, que cruzaram a Baixa de Lisboa, no dia em que a Liberdade acordou de madrugada. Meios que podiam ter feito mossa. Nesse caso, a nossa História recente estaria agora ensombrada por mais sangue derramado. Assim tivesse sido feita a vontade do oficial-general brigadeiro Junqueira dos Reis.
Fiel ao regime, o brigadeiro, então segundo-comandante da Região Militar de Lisboa, queria lutar. A rendição, ou a adesão ao Movimento, não estavam nos seus propósitos. Como, claramente demonstrou em dois momentos. Primeiro aqui, mais tarde na Avenida da Ribeira das Naus. Mas lá chegaremos…
Aqui, na Rua do Arsenal, era o coronel Romeiras Júnior quem comandava os dois carros de combate, que eram parte da força às ordens do brigadeiro; a restante estava na Ribeira das Naus. Previa-se o confronto. Salgueiro Maia mandou parlamentar. Alfredo Assunção, tenente da Escola Prática de Cavalaria, foi. Junqueira dos Reis não o quis ouvir. Pelo contrário, respondeu com uma agressão clara: três murros no tenente.
O emissário de Salgueiro Maia aguentou firme. Sem ripostar, respondeu aos murros com a saudação militar: fez a continência, em aprumada posição de sentido. Apesar da correcção do oficial subalterno, Junqueira dos Reis não ficou satisfeito. Mandou disparar sobre o tenente. Porém, graças à pronta intervenção do coronel Romeiras Júnior, ninguém disparou. O parlamentar, voltou, por isso, ileso, para junto da gente de Maia.
O pior passou. Nenhuma arma fala. Nenhum canhão dispara. Mas o brigadeiro ainda não pôs fim aos seus intuitos bélicos. Guarda-os para a Avenida da Ribeira das Naus, como veremos em próxima edição. Aqui, na Rua do Arsenal, passado o pior, é Salgueiro Maia quem caminha pensativo, pela linha do eléctrico. Em segurança. O homem de Santarém não é um alvo. A morte ainda o não espreita… Mas os carros de combate permanecem.
Hoje, na foto de baixo, é a mesma rua, trinta anos idos. Não se vê uma única pessoa. Só automóveis e autocarros cruzam o caminho que, antes, Maia palmilhou. São duas esquinas do tempo, em países diversos. De 1974 até 2004, vivemos mudanças aceleradas e profundas. Não só Portugal não é o mesmo; o Mundo é, também, muito diferente.
Crescentemente, a democracia parlamentar foi ganhando terreno, como forma de organização política e social. As sementes de Abril, no percurso da Liberdade, germinam agora numa crescente cidadania participativa, que reproduz, em novos moldes, a participação dos cidadãos na vida da cidade. Hoje como ontem, trata-se de devolver a política à posse de cada um; e mesmo que o processo seja lento, é também irreversível. Neste país à beira-mar plantado, esse é um caminho que Abril abriu. Se mais não tivesse feito, seria já bastante.

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