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O ‘Che’ e o ‘Chávez’

Outubro 10, 2007

Nunca menosprezei este especial ‘fetiche’ pelo “Che”. Contudo acho mais negativo o desvio substitutivo assumido pela esquerda face ao capitalismo.

Miguel Angel Belloso
Não sei o que sucedeu em Portugal mas em Espanha este fim-de-semana testemunhou-se uma certa apoteose em relação à figura de Che Guevara, falecido faz hoje quarenta anos. O senhor Guevara é o assassino mais simpático da história universal e o ícone anti-capitalista que mais vendeu no mundo capitalista que combateu com aguerrida ferocidade. Além do mais, possui todas as supostas virtudes da juventude, a saber, a etapa mais precária e pueril da vida: rebeldia, brilhantismo, luminosidade ou romantismo.

Alberto Corazón, um dos desenhadores gráficos espanhóis mais importantes, escreveu este domingo no diário “El Mundo”, com total convicção, que o “Che” “simboliza a generosidade e o idealismo, a referência que tanto precisamos”. E acrescenta, “o interessante deste relato é que, no dia em que tiramos a camisola de “Che” surge imediatamente uma nova geração que a veste. Gosto desta imagem, quase adolescente e pouco sustentada”.

Como lhes digo, estas palavras foram escritas por um senhor supostamente sério como Alberto Corazón. No entanto, a verdade é que “Che” foi um bandido e um criminoso que, sem qualquer piedade, ordenou fuzilamentos – “vivo e sedento de sangue”, como escreveu à sua mulher. Posteriormente, e já na qualidade de ministro das Indústrias de Castro propôs-se, com um êxito perfeitamente descritível, semear o centro da Havana com cana de açúcar e, finalmente, como governador do Banco de Cuba, marcou indelevelmente o desastre financeiro no qual o país sempre viveu. Depois de fracassar nestas responsabilidades de monta dedicou-se à sua verdadeira vocação: disparar tiros noutros países, mas sempre em defesa dos pobres. E esta é a personagem impressionante cuja camisola continua a ser vestida por inúmeros jovens espanhóis e portugueses, auspiciados ou benzidos pela esquerda, quer por sentimento ou por prática.

Pessoalmente, nunca menosprezei este especial ‘fetiche’ pelo “Che”, pois representa a ditadura do proletariado , que tantos crimes e pobreza originou em nome de uma falsa boa causa. Contudo, acho mais negativo o desvio substitutivo assumido pela esquerda, sempre à procura de motivos para alimentar a reticência ou o ressentimento face ao capitalismo. Hoje, por exemplo, a esquerda do meu país defende que as mulheres tenham direito a usar ‘burka’ ou véu. Num acto público não muito longínquo, o primeiro-ministro Zapatero aceitou de bom grado o lenço palestino, com Chávez e Morales a serem considerados uns gajos perfeitamente democráticos e defensores do progresso por uma parte importante da esquerda espanhola e pela facção mais carismática e anacrónica da congénere portuguesa: refiro-me a Mário Soares. De acordo com o filósofo Bernard-Henry Lévy – que todos sabemos de onde provém e que deveria estar isento de reprovação entre os socialistas, pois negou-se a apoiar Sarkozy –, a esquerda está a propor “um novo tipo de totalitarismo com raízes no anti-liberalismo, no nacionalismo exacerbado, no jacobinismo, no anti-americanismo, no anti-semitismo e no laxismo” – o relaxamento moral e dos princípios de toda a natureza. Numa entrevista publicada ontem no diário “El Mundo”, Lévy afirmou que “Chávez é a encarnação mais notória do neo-totalitarismo de esquerda. Muitos partidos ocidentais de esquerda consideram-no uma espécie de herói mas não passa de um verdadeiro fascista que aglutina, com a sua loquacidade, um pensamento que começa a ter demasiados admiradores. Refiro-me a esta visão da trama norte-americana, a ameaça do sionismo”.

Concordo com as palavras de Lévy. Sempre considerei que a esquerda, no fundo, é pouco democrática. A esquerda interpretou sempre  a democracia no sentido sufragista, como um exercício de voto, sempre que este fosse sinónimo de poder. Mas depois de ali chegar, resistiu, ou colocou todos os impedimentos possíveis a qualquer controlo exógeno, por instituições independentes, em prol das minorias e do progresso dos países. Finalmente, a esquerda é hoje um movimento pouco moderno: o seu principal objectivo é manter à risca as forças da globalização, conservar os sistemas de bem-estar tal como estão, em vez de proceder às suas reformas, e lutar contra o imperialismo norte-americano. Começamos por vestir a camisola do “Che” para depois não termos outra solução que usar a de “Chávez”. Este é o verdadeiro drama da esquerda.

Miguel Angel Belloso, Ex-director do “Expansión”

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