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Os nossos velhos preferem morrer

Outubro 22, 2007

O Rádio Clube Português deu-me a notícia, logo de manhã: o “socialismo moderno” prepara-se para “actualizar” as regras da lei das manifestações. Ia compor a frase com um melancólico advérbio de modo, e um fatigado adjectivo: “Fui tristemente surpreendido” – porém, já nada me surpreende (embora tudo me entristeça) nas decisões tomadas por José Sócrates.

É um pesado fadário que temos de cumprir. Caímos numa armadilha tenebrosa e fomos enganados com ardis, aldrabices e artimanhas.

Devemo-nos perguntar, e exigir que Sócrates se pergunte, quais as razões pelas quais quarenta e sete por cento dos velhos portugueses aceitam como boa a eutanásia? Porque o Governo os despreza, espezinha, explora, humilha, vexa – não lhes acode, não os protege, não os defende, não os agasalha, não os ama.

Herborizados pelo mais assombroso e eficaz dispositivo propagandístico de que me recordo, os portugueses vivem em astenia moral, social e ideológica. Parecem indiferentes à evidência de que este Governo está contra eles: está contra nós. O “socialismo moderno” vai criar novos impostos aos reformados; vai aumentar os combustíveis (e, decorrentemente, tudo o que lhe procede, de bens imprescindíveis); fez crescer o desemprego; encerrou centros de saúde, maternidades e postos de atendimento imediato. Deu às taxas moderadoras a configuração da pornografia política, ao aumentá-las escandalosamente. Sob a obscena e abstrusa afirmação de que há “escolas que não dão rendimento social”, porque têm menos de dez alunos, encerrou centenas delas.

O rol de malfeitorias é infindável. Resoluções marcadamente antisociais explicam o número de portugueses pobres: mais de dois milhões=mais de um quinto da população. Porém, cerca de meio milhão sobrevive nos níveis da miséria. Não se sabe ao certo a percentagem, em todo o País, de portugueses sem-abrigo. O número de jovens licenciados sem emprego nem perspectivas de futuro acresce na pauta de todos os desesperos. As privatizações previstas não resolvem os problemas nacionais, no-lo ensinam economistas prestigiados, como o prof. Medina Carreira, cuja intervenção na vida pública devia ser mais assídua, pelo seu destemor cívico e pela sua excepcional qualidade pedagógica.

Por outro lado, a criação de mais “empresas hospitalares”, rude eufemismo que mascara o fácies do “privado”, não diminui as despesas com o pessoal. Depois, aqui e além, continuam as reformas sumptuosas e os vencimentos ultrajantes de “gestores”, que passam de “especialistas” de televisão a peritos em fábricas de parafusos e destas para companhias de produtos farmacêuticos, a seguir para as oleaginosas.

Assisti, na América Latina, anos de 60, a vergonhas semelhantes. No Brasil, então, o despudor chegou a horizontes tão agressivos que a radicalização foi a solução encontrada pelos desesperados. Percorri, na época, parte substancial da imensa nação. Encontrei-me, clandestinamente, com grandes resistentes, que se opunham à guerrilha urbana. Não a admitiam nem justificavam, mas tentavam explicar-me a natureza profunda da cólera popular. A Igreja vaticana, com excepção de Dom Hélder Câmara e poucos mais bispos, remetia-se ao tradicional silêncio da cumplicidade. Os padres partidários da Teologia da Libertação eram ferozmente perseguidos pela hierarquia católica e pelos militares. Parte da Imprensa, nas mãos de senhores poderosos e oligarcas, foi conivente. Até que.

Viajo, com frequência, por Portugal. Possuo adequada informação do que se passa. Quando posso, e assim que posso, ergo a voz do meu protesto. O famigerado défice tem servido de pretexto para esta furiosa avançada. Um comentador de voz grossa e módica meninge discorria, há dias, acerca do “alívio” que o Governo estava a sentir. E blá-blá-blá sobre exportações, “factores exógenos”, “cepa torta” – trapalhadas sem direcção nem sentido. Como acentuou, meses atrás, o prof. Medina Carreira, a luta contra o défice devia envolver toda a gente, e não os mais desprotegidos. Eis a questão.

Vivemos sob o império da mentira, da dissimulação e do embuste. Nada nos é claramente dito. A informação é escassa. Tornou-se acto institucional o facto de o Executivo fazer e só depois dizer. O clima de medo, de intimidação, de represália instalou-se na sociedade portuguesa de uma forma larvar. Não se ressalva os direitos adquiridos pelas massas trabalhadoras. Aniquila-se as actividades sindicais. A ofensiva “mediática” contra Paulo Sucena, o grande dirigente da Fenprof, desceu a patamares absolutamente sórdidos. O actual, está sob o fogo de “comentadores” sem beira nem beiral. Carvalho da Silva, cuja dimensão intelectual e sindical não sofre comparação com nenhum outro, tem sido, amiúde, objecto de insídias – sobretudo quando a contestação social chega ao rubro.

Estamos numa situação perturbadora. E não se trata, somente, do País, o que, de si, já seria alarmante, mas, também, dos tratos de polé que José Sócrates aplicou à ideia socialista. Guterres, defensor do “socialismo católico”, coisa risível, escancarara as portas à Direita, proporcionando o descalabro de Durão Barroso e o intermezzo cómico protagonizado por Santana Lopes – agora, malamente de novo, em posição de relevo político. Sócrates, com a “modernidade socialista”, procedeu ao trabalho sujo que a Direita se envergonhava de fazer.
O caminho está aberto. Quem nos acode?

APOSTILA – Helena Sacadura Cabral, numa estupenda crónica publicada no diário gratuito “Meia Hora”, escreve sobre a tributação das pensões de reforma, com notável clareza, o seguinte: “Para além do duvidoso critério quantitativo, o senhor ministro esquece que a reforma é algo que se foi constituindo ao longo de uma vida e portanto não pode e não deve ser tratada como um rendimento de trabalho. Esquece, ainda, que a mobilidade profissional de uma pessoa de 70 anos é substancialmente menor do que a daqueles que, ganhando o mesmo, têm 45. Para não falar, já, das necessidades de saúde acrescidas que, nessa altura da existência, os mais velhos terão, com certeza, de enfrentar. Tanto o nosso PM como o dr. Teixeira Santos são jovens. ‘Apenas’ têm o cabelo branco. Mas um dia virá em que outros sintomas surgirão. A vantagem de ambos, e a minha, é que a nossa pensão de reforma será sempre ‘suficiente’ para pagar as maleitas da idade. O problema está naqueles que, ao longo da sua vida, nunca tiveram mais do que o suficiente para pagar o pão de cada dia”.

Baptista Bastos

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One Comment leave one →
  1. Luis Manuel permalink
    Outubro 23, 2007 12:02 am

    Quem acabe de ler esta crónica e não tenha saído de casa nos últimos tempos deve pensar que estamos no Sudão. É evidente que há muito a resolver mas acho que os portugueses têm melhorado a sua vida
    apesar de haver ainda uma faixa de pobreza considerável. A tal liberdade que dizem que se foi é pura demagogia. Nunca em tempo algum houve liberdade de imprensa como hoje. Estamos no 10º lugar no mundo ( entree 169): na televisão qualquer garoto tem tempo de antena para dizer o que lhe apetece sobre os politicos e do governo de uma maneira geral. Os concertos
    seja no Atlântico, seja o La Feria seja noutroqualquer ( e alguns bem caros ) estão quase sempre esgotados. Os centros comerciais sempre a abarrotar. Os Modelos e familia, sempre cheios. Reformados bem pagos, professores, funcionários públicos, bancários…
    tudo por aí à barba longa. E até eu que nãoi esperava já cá estou na reforma. Não tenho que me queixar. Mas é verdade que se não houvesse es tes cortes quem pagaria esta avalanche de reformado ? Reformaram ao longo destes anos gente com quarentas, cinquentas , militares e naturalmente que tinha que chegar a este ponto.
    É pena não se puderem levantar as reformas mais pequeninas. Estou convencido que lá se irá.
    Não estamos no Paraíso nem qualquer coisa no género. Mas para quem como eu qwue vivi na casa dos meus pais, sem quintal, uma pequena casa de banho, carros nem vê-los e outras vicissitudes, custa-me que se digna que estamos péssimos. Mentira. Os lares estão cheios de velhos que devido aos tratamentos que têm chegam aos noventas com facilidade. Na minha terra é vê-los . No outro tempo nada disso existia. Nem subsidios, nem segurança social, nem férias nem nada. A minha riqueza éw uma casa ( que nunca pensei ter) ganha com o meu trabalho. E depois tenho tudo aquilo que gostava de ter e nunca tive apesar de hoje haver mais possibilidades de obter esses objectos (computadores, máquinas fot. de filmar etc. etc.
    Não preciso de mais nada. Só quero que o meu país progrida e vença no que ainda n~ºao conseguiu. Agoira não posso aceitar que me digam como no outordia me disseram que no tempo do Dr. Salazar é que era bom. ALguém que conheci e andava de pata descalça com ranho pelo pescoço, e mais não digo porque até enoja. Peço desculpapor este desabafo. Apenas alguèm que olhando à sua volta não consegue ver a negrura de que se fala apesar de haver gente à espera da melhoria de que falei. Boa noite. Os meus cumprimentos. Luis Manuel

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