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A CRISE DA ESQUERDA

Novembro 19, 2007

D iscreteando sobre La Chinoise, o grande clássico de Godard, para unir a tese de “filme político” ao ensaio de Bernard-Henry Levy, Ce Grand Cadavre à la Renverse, João Lopes escreveu, anteontem, no Diário de Notícias, um belo artigo, que propõe amplas vias de reflexão. O “património de imagens”, referido pelo articulista, a fim de definir o que embala, hoje, a esquerda, coloca o problema na confusão que se apoderou da política. João Lopes nunca se afastou do princípio [de Aristóteles a Adorno] segundo o qual a estética está associada a uma ética, e ambas são o traço identificador de uma cultura relacionada com a ideologia.

As “imagens” são, pois, o património da memória, que a direita tem procurado, amiúde com êxito, apagar ou desvirtuar. Estabelecendo paralelos entre diferentes manifestações de arte, Lopes intitula o texto “Repensando a Crise da Esquerda Europeia”, a fim desembocar nas múltiplas incertezas de que La Chinoise fazia questão central e premonitória, ante-Maio de 68. Porém, a crise da esquerda decorre da crise da direita, porque ambas são complementares. E poucas vozes, na Europa, de um e de outro lado, conseguiram abandonar as concepções ultrapassadas do mundo, de que são dramaticamente prisioneiras. Veja-se a ambiguidade do Tratado de Lisboa, e a astenia política dos seus antagonistas. O capitalismo sai largamente beneficiado, e a Europa dos “valores”, da solidariedade nas diversidades culturais, da justiça e da democracia é severamente sovada. Esta civilização universal do acordo e do consenso não passa de ficção. Apenas o Pacheco Pereira tocou nos pontos sensíveis do pacto, advertindo estar em risco o modelo europeu de sociedade, porque nada, no Tratado, corresponde a uma garantia para o futuro. Podemos estar ou não de acordo com o Pacheco. Por vezes, irrita-me a soberba dos seus tiques de guru e o ar enfastiado com que ancora o discurso. Mas é um homem lido e bem informado, com o qual se pode ter conversa agradável, por vária e fundamentada. Há anos, escreveu uma série de artigos, no Público, sobre esquerda e direita, do melhor que a inteligência portuguesa produziu. Não resultou no debate necessário. Uma tertúlia de que faço parte, Os Empatados da Vida, distinguiu-o, então, com um almoço e o prémio do mês.

O “realismo” político da esquerda tem sido o do cumprimento das regras, sem contrariar o domínio do capitalismo global, cada vez mais selvático. A esquerda tem, somente, tentado salvar a mobília com que ataviou a sua história, aceitando, como mal menor, as imposições do “mercado”. As “imagens” (cinematográficas ou literárias) de que fala lucidamente João Lopes, previnem-nos sobre o mais avassalador empreendimento anti-social de que há conhecimento – e aconselham-nos a agir. Como? A esquerda não ensina porque não sabe.

Baptista-Bastos
escritor e jornalista

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