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A Literatura Portuguesa actual

Novembro 19, 2007

Lobo Antunes, convidado pela Secção de Português da Universidade Paul-Valéry, participou num seminário organizado em Montpellier em 22 de Novembro de 1983. A Secção de Português agradece vivamente ao escritor por ter querido voluntariamente prestar-se a este exercício universitário. Este texto reúne o essencial das declarações feitas por Lobo Antunes nesta ocasião, declarações recolhidas e coordenadas por Francis Utéza.

 

A Literatura Portuguesa actual

 

Na última Feira Internacional do Livro de Frankfurt, pretendeu-se que não havia actualmente na Europa senão duas literaturas verdadeiramente criativas: Na Alemanha Ocidental e em Portugal. O facto é que houve uma autêntica renovação dois ou três anos após a Revolução de 74, e creio que se pode afirmar que o século XX literário português começou nesse momento. O mais importante consistiu numa verdadeira reconciliação entre o público e os escritores. Anteriormente, devido à censura, nós devíamos fazer uma literatura “alusiva”, depois de 74 tudo mudou, para nós pelo menos. Além disso, vários escritores tiveram o mérito e sobretudo a sorte (porque é também uma questão de sorte) de serem lidos e traduzidos no estrangeiro, nomeadamente nos EUA. Hoje, estamos a caminho de sermos “descobertos” no Brasil. Venho ainda agora de uma viagem nesse país com outros escritores portugueses – José Saramago, José Cardoso Pires, Égito Gonçalves da geração anterior, Lídia Jorge e Almeida Faria da minha geração.

Posso dizer que se instaurou um novo estado de espírito nos escritores do meu país. Não há um “movimento literário” do tipo dos movimentos que juntaram no tempo certos criadores – Orfeu Presença, ou o neo-realismo por exemplo. Permanecemos profundamente diferentes e essa diversidade faz a riqueza da nossa literatura. Mas sobretudo tenho a impressão de que se está a criar uma solidariedade, uma espécie de sentimento de classe parecido ao que existe já no Brasil. Por exemplo, tive problemas técnicos com o romance em que estou a trabalhar agora, e pude discuti-los durante a minha estadia no Brasil com outros escritores. Hoje ajudamo-nos mutuamente. Era impensável há não muito tempo. Antes, quando aparecia um tradutor potencial, em poesia principalmente, o primeiro que lhe metia as mãos em cima, capturava-o e fechava-o em sua casa até ele deixar o país. É verdade, não estou a exagerar. Hoje, pensamos que ninguém tira o público a ninguém. Organizamos conferências colectivas, sessões em comum com os nossos leitores. Vamos às fábricas, às companhias de seguros. Constatamos uma grande adesão do público. É um fenómeno novo em Portugal, que contribui, e bem, para desmistificar o escritor.

 

A crítica portuguesa

 

Os críticos são pessoas que me fascinam. Pergunto-me muitas vezes qual é o papel da crítica. Em Portugal, contudo, não desempenha papel nenhum, não tem qualquer influência no público que se decide a ler um livro pelo sistema de passa-a-palavra. Nos EUA, pelo contrário, uma boa crítica no The New York Times, no Herald Tribune, faz vender um livro de certeza. Alguns chegam a comprar o livro por causa da crítica e não do livro!

Por que é que a crítica portuguesa não tem efeito no público? Creio que isso se deve à inexistência de críticos bons. Muitos são demasiado velhos e fazem sobretudo terapia ocupacional. Pode vir a surgir uma nova geração de críticos que compreendam melhor o fenómeno literário?

Por outro lado, a crítica portuguesa emite sempre juízos de valor: por exemplo o Sr. João Gaspar Simões julga-se proprietário de Fernando Pessoa e portanto se alguém escreve sobre Pessoa isso não vale nada porque não foi o Sr. Gaspar Simões que escreveu. Em Portugal julga-se sempre, a crítica é laudativa para os amigos e diz mal dos outros. A crítica não deve trazer juízos, deve descodificar, fazer perceber como funciona um livro ou um poema – Borges tem belas páginas sobre isso. Em Portugal, se quiserem uma boa crítica escrevam um livro obscuro, que ninguém vai ler, que ninguém vai comprar: dirão bem de vocês, porque não são um potencial concorrente… No que a mim me diz respeito, os meus primeiros livros foram ignorados. Hoje, não podem fingir que não sabem que eu existo porque estou entre os que vendem mais, e como a crítica do The New York Times e do Herald Tribune disse bem de mim, pouco a pouco começam a dizer também em Portugal, pelo que agora os meus livros são maravilhosos. É típico do que Pessoa chamava o “provincianismo português”.

 

O escritor e o seu trabalho

 

Não acredito na inspiração. O talento não existe. Há pessoas que trabalham. Raymond Radiguet dizia não ler senão livros maus porque eles permitem descobrir a marosca; ao lê-los, aprendemos o mecanismo do texto, mas quando lemos Guerra e Paz por exemplo, não apreendemos o trabalho, é como um ovo, não chegamos a entrar. Manuel da Fonseca dizia: “ser espontâneo dá muito trabalho”. Pelo meu lado, trabalho muito para tentar dar ao leitor uma impressão de facilidade.

Escrevo durante cinco a seis horas por dia. Faço sempre um plano muito detalhado, com todas as peripécias; depois escrevo quatro versões seguindo o plano. Quando termino, dou a dactilografar (escrevo sempre à mão), revejo o texto dactilografado e decido que versão envio ao editor e é esquecida. Nunca releio os meus livros porque os reescreveria sem parar. Ao começar um livro, não tenho senão uma ideia, livrar-me de tudo o mais depressa possível.

O mais difícil para mim, não são as personagens, é o problema do tempo. No princípio resolvi-o limitando-me a um dia, a uma noite, depois tornei-me mais ambicioso… O meu último romance cobre dez anos. Para o cenário, sou uma espécie de ladrão, observo por exemplo as casas dos meus amigos e sirvo-me, não sei inventar casas…

Quando escrevo, tenho uma sensação de gravidez. Os homens invejam a gravidez das mulheres. Freud não falou disso, falou da inveja de pénis das mulheres, mas não da inveja da gravidez dos homens. Para mim, a única forma de responder a esta inveja é escrever um livro.

Um romance corresponde sempre a uma época determinada da nossa vida. É por isso que é estranho para mim falar-vos de um romance como Os Cus de Judas, que está hoje tão longe de mim, a minha maneira de escrever está tão mudada…

É curioso, nunca encontrei prazer em escrever. Creio sempre que estaria melhor a divertir-me com os meus amigos do que a escrever. Mas quando não escrevo, sinto uma espécie de doença física, como se me vestisse de manhã sem ter tomado banho. Então, escrevo… Administro o meu tempo, cinco a seis horas de trabalho por dia, e depois faço o que apetece. Quando era adolescente, uma da minha numerosas tias dizia-me: meu filho, tu não tens ainda idade de viver dos teus defeitos. Hoje, creio que tenho idade suficiente de viver dos meus defeitos.

Escrever é sempre um desafio. Deveríamos mudar A Bíblia, onde diz: “no começo era o Verbo”, deveria dizer: “no começo era a depressão”. A nossa vida é uma espécie de luta contra a depressão, até à depressão final, a morte. Não procuro dar conselhos, a quem servem os conselhos? Também não tenho moral. Não sou La Fontaine.

Tento dar o máximo de verosimilhança. É bem verdade que se diga que os livros são autobiográficos. Isto aprendi com os Americanos: acreditamos que as coisas chegaram, que elas podem chegar. Recebi uma data de correspondência de pessoas que me davam conselhos para organizar a minha vida!

Parece-me que em França o mito do escritor ainda é muito profundo. Creio que ainda não entenderam aqui que os escritores são homens que mijam como toda a gente, escrevem livros e é tudo, são seres comuns.

No século XX temos tendência a fabricar mitos para os destruir. Os chefes, por exemplo, a sua função é serem detestados. Os mitos não servem senão para serem destruídos. Escritores, médicos, é o mesmo. Lembro-me que quando era criança, era suficiente que aparecesse o mito para que não me sentisse mal… Queria dizer: “deixe-me tocar-lhe com o dedo”. Tenho a impressão de ser uma espécie de Júlio Iglésisas com os seus fãs! É o lado folclórico da adesão do público e por um lado é bom. Em Portugal, sempre disse que havia demasiado de Joyce e não bastante de Harold Robbins. Em Portugal, ser um grande escritor é como significasse não ser lido. A minha ambição é tocar o máximo de leitores, para lá dos dois milhões que já tenho.

Estou convencido de que os escritores portugueses estavam afastados do público por uma linguagem demasiado cara. Era necessário estoirar essa linguagem. Pensei que ao empregar uma linguagem mais comum poderia facilmente chegar às pessoas. De facto, aprendi isso com Céline, o mestre de todos nós. Quando eu tinha 15 anos, o meu pai ofereceu-me os seus livros dizendo-me: “é um nazi, mas é um escritor revolucionário”. Descobri que o meu pai tinha razão. Escrevi a Céline para lhe pedir uma foto com dedicatória. Respondeu-me e correspondemo-nos até à sua morte, em 1961. Disse-me: “pequeno, se queres ser escritor, é preciso trabalhar muito”. Assim, permaneci muito ligado a este homem que nunca vi. Lembro-me das grandes folhas de papel amarelo que ele me enviava. Céline e os Americanos, as grandes descobertas da minha vida.

 

Romance e psiquiatria

 

Não queria ser médico. O meu pai é neurologista na Faculdade de Medicina de Lisboa. Tive que fazer os meus estudos em medicina em protesto. Pensei, o que se parece mais com Dostoievski? A psiquiatria. Então, especializei-me em psiquiatria. Mas hoje acabou, já não sou psiquiatra. Tenho uma posição muito crítica face à psicanálise. Fiz uma análise freudiana, mas creio que a psicanálise é uma indústria. Foram feitas pesquisas nos EUA sobre o perfil do psicanalista. Interrogaram-se milhares e chegou-se à conclusão de que o perfil destes homens era o seguinte:

– inteligência média

                        – pouca imaginação

                        – grande dificuldade de integração

                        – enorme apetite de poder

                        – voyeurismo.

Em Portugal os psiquiatras são os pilares de uma ordem social que eles estão obstinados em manter. Para certos psicanalistas americanos, os operários que se revoltam contra os seus patrões são pessoas que não resolveram o seu Édipo, é por isso que se revoltam. A ideia inicial de Freud era muito revolucionária: foi o primeiro a dar atenção ao facto de as diferenças sociais serem factores de angústia, de depressão. Este pensamento foi completamente invertido. Escrevi um livro sobre esta questão, e isso valeu-me aborrecimentos com a Sociedade Internacional de Psicanálise. Diatkine(1) veio especialmente de Paris a Portugal para me interrogar, para decidir se me iriam expulsar da sociedade, que é uma espécie de máfia. Era muito jovem na época e isso foi muito duro para mim.

Nós somos todos esquizofrénicos. Por exemplo esta sensação de ser observado por toda gente quando entramos num local público, é uma sensação muito comum. Não há nada de psicótico nisso. Para criar as minhas personagens, observo à minha volta… O narrador de Os Cus de Judas era um neurótico. É uma neurose da guerra que atingiu muitos portugueses. Sei que muito tempo antes de terem voltado da guerra, metiam-se debaixo da cama ao menor barulho que se assemelhasse a uma explosão.

Creio que somos muito sós; recorremos a um psicanalista porque estamos sós, fazemos amor porque estamos sós, e retiramos um grande sentimento da solidão. Trabalhamos numa sociedade esquizofrénica onde a ideologia é sempre industrial. Há pouco lugar para o amor ou a afeição. É preciso ganhar a vida. No final da semana chega o terrível fim-de-semana em que os casais se olham. Cheios de fantasmas paranóicos a rondar: é por causa dela; é por causa dele que não sou feliz… Recebo clientes que não suportam os fins-de-semana, esse face a face terrível porque as pessoas não sabem viver a dois, a maior parte.

Espero que a solidão não seja absolutamente inevitável. Eu sou como a mãe de Blondin que lhe dizia muitas vezes; “não tenho fé, mas tenho esperança”. Encontrei esta fórmula admirável e reutilizei-a num dos meus livros, na Memória de Elefante, acho eu.

Os homens, quando se encontram, é para discutir política, futebol ou mulheres, sobre os méritos de uma ou de outra. Fazem uma espécie de aliança artificial contra a solidão. Freud dizia muitas vezes que o objectivo da análise deveria ser de poder apreender a realidade, a angústia da existência sem procurar constantemente escapatórias. Recentemente, li a autobiografia de Graham Greene de quem gosto muito, e ele dizia qualquer coisa como: “Não sei como fazem as pessoas que não escrevem para escapar à loucura, à paranóia, ao suicídio”. Eu creio que, enquanto escritores, nunca estamos sós.

 

Sobre Os Cus de Judas

 

Este livro faz parte de uma trilogia onde quis abordar três temas fundamentais para mim: a guerra, a relação entre homens e mulheres e o universo contraditório dos hospitais psiquiátricos em Portugal, considerado como um microcosmos representativo do país inteiro. Para Os Cus de Judas, no princípio pensei na história de uma relação entre um homem e uma mulher onde não houvesse amor, uma relação onde as pessoas se separam, se assassinam lentamente porque são egoístas, narcisistas, etc…

Depois ocorreu-me a ideia de reforçar esta história fazendo um contraponto com a guerra de Angola. Não é para mim um romance de guerra, é um contraponto entre duas guerras sangrentas, uma guerra entre um homem e uma mulher por um lado, e o absurdo da guerra colonial por outro lado. A mulher tinha duas funções para mim: aquela a quem o homem se destinava, não tinha um papel concreto – e é assim que se passa na realidade da sociedade portuguesa e talvez de todo o mundo latino, onde a mulher não é de certa forma senão um lacaio do homem, onde nos compreendemos tão pouco, onde estamos tão pouco preparados para nos compreendermos – e por outro lado, seria um pouco o leitor. Então temos um tipo que fala, fala que se destina a uma mulher mais ou menos consistente…

Por fim, queria também evocar uma forma muito particular da vida nocturna de Lisboa que é muito intensa, com os seus bares, as suas discotecas e a extrema solidão que lá reina. Entra-se num bar, e o que nos assalta primeiro é a solidão. Uma vez a dona de um bar disse-me; “Ganho dinheiro com a depressão das pessoas”.

O título do romance tem dois sentidos: o da distância e o da traição. Judas era a expressão que utilizavam os partidários do MPLA para designar os portugueses e os que colaboravam com o exército português. Era obrigado enquanto médico a assistir aos interrogatórios dos prisioneiros pela PIDE, e era o que diziam os prisioneiros aos agentes da PIDE que eles queriam insultar. No hospital Miguel Bombarda, onde trabalhava, tínhamos internado um certo número de presos políticos que também eles usavam esta expressão Judas sobre nós.

Então a ideia surgiu-me muito naturalmente, quando o meu editor me pediu para mudar o título que eu lhe propusera pois não lhe parecia muito comercial (tratava-se da última frase da autobiografia de um poeta do grupo de Fernando Pessoa que morreu no Miguel Bombarda após 40 anos de internamento. Encontrei o manuscrito que ele tinha redigido à atenção do seu médico, e escolhi a última linha para título do meu livro).

A guerra fez-me tomar consciência de coisas que eu ignorava totalmente. Durante muito tempo vivi numa espécie de redoma. A família – nós vivíamos em Portugal segundo os costumes da grande família patriarcal de Belém do Pará, com numerosos filhos – o liceu, a faculdade, Londres – onde durante cinco anos estudei no hospital onde trabalhou Somerset Maugham – e depois quando regressei a Portugal fui chamado para a guerra.

À época as classes sociais eram estanques. Nenhum contacto. Estávamos fechados, o mesmo nível, a mesma cultura, sou mesmo levado a dizer que não era português. Foi no exército que conheci uma outra relação, vertical e não horizontal. Em Angola eu era como clínico geral, e quando era preciso amputar uma perna com uma serra de carpinteiro porque não havia outra coisa, tornamo-nos forçosamente diferentes.

Foi lá que conheci Melo Antunes, devo-lhe muito, fez-me descobrir muitas coisas, e permanecemos amigos. É um homem muito corajoso. Um dia, no Sul, apontou uma pistola a um agente da PIDE e disse-lhe: “se não te vais embora mato-te”. Antunes foi mudado de unidade, mas os interrogatórios de prisioneiros pela PIDE foram interrompidos.

O suicídio para mim não é uma obsessão, é um tema que se pode encontrar em todos os meus romances. Isto não significa que eu me quisesse suicidar, pelo contrário! Naquela altura preparava uma tese de doutoramento sobre o suicídio das pessoas jovens. Discutindo com os jovens que tinham sobrevivido a uma tentativa de suicídio, fui assolado pelo seu sentimento de imortalidade. O suicídio era sempre o assassínio de alguém. Assassinavam a parte má. O meu avô, que amava muito, suicidou-se. Ele tinha um cancro. Deixou uma carta muito clara na qual dizia que ia matar o seu cancro e que poderia depois viver de boa saúde. Isto marcou-me muito, tal como o meu contacto de vários anos com jovens suicidas. Dizemos muitas vezes que é preciso muita coragem para cometer suicídio. Não acredito nisso. Em Explicação dos Pássaros tentei contar um suicídio como uma história de circo porque quando era criança tinha muito medo dos palhaços, faziam-me sempre pensar na morte.

As minhas personagens têm pouca realidade física, para deixar ao leitor a possibilidade de se identificar com elas e melhor aderir à história. Perguntaram-me sobre a Teresa, era a dona de uma casa de putas que existia mesmo no meio da selva, uma preta enorme como as personagens femininas de Jorge Amado, muito maternal com os soldados e os oficiais. Ela tinha com ela duas ou três raparigas esfomeadas e era perto delas que procurávamos um pouco de ternura. Sabem, o amor maternal é uma coisa da qual tenho pouca experiência. Tive uma infância muito estragada, com relações familiares muito distantes, a minha mãe nunca me beijou quando era criança.

Os grupos feministas em Portugal afirmam que os meus livros são repugnantes – os grupos mais virulentos, claro – e que as mulheres os rejeitam. Eu não sei, fica ao vosso critério.

As referências culturais abundam nos meus três primeiros romances. Hoje, penso que é um erro mas que isso fazia parte de uma espécie de ajuste de contas com a minha infância. Fui educado de uma forma muito especial. O meu pai metia uma sinfonia e anunciava: “quem não souber o nome desta sinfonia não sai no domingo”. Ou lia duas ou três páginas de Zola ou de Flaubert ou de Kipling e depois acrescentava: “quem não conhecer o autor destas linhas não sai no domingo”. Lembro-me que um dia à mesa ele perguntou quem era Einstein. A minha mãe respondeu: “acho que é um preto que toca jazz”. Não sei se ele privou a minha mãe de sair, mas sei que para nós, seis filhos quase da mesma idade, isso era terrível. Então vinguei-me nos meus leitores metendo armadilhas destas nos meus livros, por vezes mesmo frases inteiras sem citar os seus autores. Hoje já não faço isso.

No que toca a Paul Simon, foi uma época da minha vida. No meu último romance também há um poema de Simon, mas não no texto. O próximo terá versos de Bob Dylan. A minha ideia era tirar a literatura do seu gueto intelectual. Não gosto de intelectuais. Em Portugal têm um uniforme: barba, óculos, cabelos compridos, não muito limpos, o Le Monde debaixo do braço. Temos em Portugal uma “classe intelectual”, o que faz com que tenhamos muitos artistas e poucas obras de arte. Os artistas enchem os bares, – não as boites, eles não ousam – eles pensam o tempo todo, não se divertem. Pensei em misturar um pouco tudo isto. Creio que Paul Simon é um grande compositor, que certas canções dos Beatles estão ao nível das Lieder de Shubert. Bernstein disse-o e ele é mais qualificado do que eu. É preciso dessacralizar tudo isto. Os intelectuais não são intocáveis, pelo contrário…

 

(1)    René Diatkine (1918-1998) foi uma das figuras mais importantes da psicanálise em França

 

texto original por cortesia de Francis Utéza

Novembro de 1983

traduzido do francês por Gonçalo Figueiredo Augusto

2 comentários leave one →
  1. Anónimo permalink
    Fevereiro 5, 2009 4:52 pm

    e 1 porcaria es site

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