Skip to content

A vida depois do cancro

Novembro 19, 2007

Bastou um dia para lhe mudar a vida. Em Março deste ano, António Lobo Antunes, 65 anos, entrou no Hospital de Santa Maria com o manuscrito em que trabalhava debaixo do braço. E dali já não saiu. A notícia, brutal, de que tinha um cancro, chegaria pouco tempo depois. No mês seguinte, após ter sido operado, escreveu na VISÃO uma crónica na qual revelou o inferno que estava a viver. Agora, seis meses passados, o escritor lança O Meu Nome É Legião e, pela primeira vez, conta o que viu e o que sentiu. Sem as meias-palavras das «doenças prolongadas» nem os disfarces dos testemunhos triunfantes. Como ele próprio diz, com as cartas viradas para cima.

Ainda tem a sensação de o seu novo livro, O Meu Nome É Legião, lhe ter sido ditado por um anjo?

Sim, mas também houve partes de Ontem Não te Vi em Babilónia que me pareciam ditadas. Quando a mão está feliz, os livros parecem-me sempre ditados. O Meu Nome É Legião está pronto há mais de um ano. E, como entretanto já estou a escrever outro livro, vou esquecendo o anterior. Tento, aliás, esquecê-lo para evitar fazer uma sequela.


Não voltou sequer a olhar para ele?

Não, apenas o folheei. Corrijo os livros tantas vezes e, mesmo assim, fico sempre com a sensação que os deveria ter corrigido ainda mais, que lhes devia ter dado mais uma volta ou duas. Há sempre um «que», um «mas», um advérbio ou um adjectivo a mais. Há sempre palavras a mais.


É um livro mais curto, com um registo mais rápido que os anteriores. Deixou de gostar daquelas longas «sinfonias»?

Não tem nada a ver porque, como leitor, continuo a gostar de romances grandes. A questão é que, a partir de agora, os meus livros vão sendo sempre cada vez mais curtos. Não sei explicar porquê – o livro acaba por ter a dimensão que ele próprio exige, é ele quem comanda.


Conhece bairros periféricos de Lisboa como o que retrata?

O livro refere-se a um bairro em concreto, embora eu nunca lá tenha estado. Sempre me impressionou o facto de aqueles miúdos não terem raízes de espécie alguma. Não são portugueses, não são africanos, não são nada. Brincam com balas em vez de brincarem com bolas. E no entanto há neles uma sede de ternura, um desejo de amor absolutamente inextinguível. A morte e a vida não têm, para eles, qualquer significado ou, pelo menos, têm um significado muito diferente do que para nós. Na minha ideia, O Meu Nome É Legião era por isso um livro de amor. De amor por uma geração, por uma classe social sozinha e abandonada, por um grupo de pessoas desesperadamente à procura de uma razão de existir.


Revê-se naqueles garotos?

Quando começo a escrever um livro, não tenho qualquer plano. Aqueles garotos, aqueles polícias e, no fundo, todas aquelas vozes vão-se encadeando de tal modo que sou o primeiro a ficar espantado. Não posso, no entanto, dizer que me revejo neles porque, naquele momento, éramos só uma e a mesma coisa. Uma espécie de relação simbiótica.


Eles estão excluídos deste mundo?

Estão de tal maneira abandonados que matar pessoas é a única maneira que têm de pedir colo. Não sei, porém, o que se passa na realidade, uma palavra idiota porque a realidade é uma coisa que não existe. Todas aquelas pessoas têm, para mim, uma densidade muito profunda.


E, nessa medida, o livro também é uma realidade?

É a única realidade que existe. Não se trata de viver noutro planeta, mas a verdade é que, quando estou a escrever, a minha vida muda por completo. Encontro uma razão, um motivo e uma direcção. E é óbvio que dou muito mais importância aos livros do que às crónicas, que são apenas…


…uma questão alimentar, como costumava explicar.

Não, já não. São antes a possibilidade de poder fazer uma espécie de itinerário paralelo. Como quando, em miúdo, andava com o meu avô em estradas paralelas à via férrea, ficando com a sensação de viajar, ao mesmo tempo, no automóvel e no comboio.


Diz que não conhece aquele bairro…

Não conheço aquela realidade do ponto de vista jornalístico.


Mas sempre gostou de subúrbios.

Aquilo não é sequer um subúrbio. Para mim, o subúrbio é Benfica ou o Cacém. Aquilo é muito pior do que isso. Aquilo é o inferno. Aquelas pessoas vivem num inferno onde eu nunca entrei.


Foi ganhando carinho por aquelas personagens?

Não sei se os leitores entenderão que o livro está a transbordar de amor. Custou-me muito que aquelas personagens morressem. Repare que até o professor não é muito diferente dos garotos – todos estão terrivelmente desamparados. Sempre me comoveu ver o desamparo em que as pessoas vivem. Acho que esta dimensão nunca foi suficientemente notada nos meus livros. Vivemos num certo desamparo, numa certa desprotecção.

Mas essa não é uma característica apenas do último livro.

Obviamente que não. Lembro-me de começar a escrever Explicação aos Pássaros na Alemanha, em casa da tradutora que tinha na altura. Convencido de que estava a fazer um romance completamente diferente, mostrei-lhe as primeiras linhas e ela disse-me que não via ali nada de diferente: «És tu.» Não consigo fugir disto – há sempre é um «outro eu» que escreve. Como quando aquele admirador da Sarah Bernhardt a encontra na rua e pergunta: «É a dona Sarah Bernhardt?» E ela responde: «Serei esta noite.»


Ficou comovido com o acolhimento que teve agora em Berlim, no Festival Internacional de Literatura?

Comovido é uma palavra exagerada. Agora, a qualquer lado onde vá, é sempre assim. Torna-se um pouco incómodo porque estive o dia inteiro a dar entrevistas no hotel e, quando saí, havia uma série de pessoas cá fora. Queriam um autógrafo não num livro, mas num pedacinho de papel. Como se eu fosse o Enrique Iglesias.


E com o Prémio Camões, que recebeu no princípio deste ano, ficou comovido?
Agora, de três em três meses, recebo um prémio. Antes, tinha vindo o Prémio Ibero-Americano, depois veio o Camões e, há dias, chegou o Neruda. É muito agradável recebê-los, mas um prémio nada tem a ver com a literatura na medida em que não melhora nem piora os livros. Um prémio é só um prémio.


Faz sentido voltar a falar no Nobel?

Nem penso nisso. Agora menos que nunca.


Porquê?
Porque há coisas muito mais importantes. Tenho a certeza de que os meus livros são muito mais importantes do que qualquer Nobel que me possam dar. Mas não me queria alongar sobre esse assunto, porque me parece que se dá excessiva importância a um prémio literário. Tolstoi e Conrad nunca o tiveram. E eles é que são os meus colegas.


Sente-se bem na companhia deles?

Não estou nada mal [sorrisos].


Até se ri…

Sabe, este foi um ano muito duro para mim. Para além de ter recebido constantes lições de dignidade e de coragem por parte de pessoas anónimas, aprendi a ter ainda mais respeito e admiração pelos portugueses. Compreendi porque é que fomos nós a ir naqueles barquinhos de 14 metros sem quilha, porque é que atravessámos o Atlântico, porque é que fizemos o que fizemos. E fiquei muito orgulhoso quando percebi que o povo ainda é o mesmo. Fez-me lembrar aqueles versos de Sophia: «Esta gente cujo rosto/ Às vezes luminoso/ E outras vezes tosco/ Ora me lembra escravos/ Ora me lembra reis». Foi muito bom ter tido essa experiência.


Muito bom?

Aprendi a admirar as pessoas do meu País. E a respeitá-las ainda mais. E a amá-las ainda mais. E a gostar cada vez mais delas. A partir daí, tudo o resto se tornou relativo. Houve coisas que deixaram de ser importantes. E normalmente é quando elas deixam de ser importantes que vêm ter connosco… O que me interessa, neste momento, é poder ter tempo para escrever, viver o suficiente para conseguir acabar o meu trabalho sem decepcionar os que acreditam em mim. Surpreende-me todo este reconhecimento internacional porque, no fundo, só escrevo livros, o que não me dá um mérito por aí além… É apenas trabalho.


E muito trabalho…

Ser pedreiro, médico ou outra coisa qualquer também dá muito trabalho. E ser doente, ser doente dá muito trabalho.


Porque é que decidiu escrever aquela crónica da VISÃO, intitulada Crónica do Hospital, onde revelava que tinha um cancro?

Como já havia muitos boatos contraditórios, resolvi aclarar as coisas e dizer a verdade. A crónica foi escrita mesmo no hospital. Mal conseguia escrever, não tinha forças para nada. O que posso dizer é que eu e todos os outros doentes só recebemos atenções. Dos médicos e dos enfermeiros, mas também das pessoas mais modestas que lá trabalham. Se dizem que tratam mal os doentes nos hospitais, a minha experiência foi justamente a contrária. Sempre vi os doentes serem tratados com a maior dignidade. Estou muito grato às pessoas que cuidaram de mim e que tiveram comigo a maior delicadeza.


O Meu Nome É Legião é, aliás, dedicado a Henrique Bicha Castelo, que o operou.

Para ele, do ponto de vista emocional, não deve ter sido nada fácil. Porque o Henrique não foi apenas o meu médico, é meu amigo. Para além de ser um cirurgião de renome internacional, é um homem de uma qualidade humana, de uma capacidade de amor, de uma generosidade e de uma ternura absolutamente excepcionais.

 

Durante todo esse período, lembrou-se alguma vez do António Lobo Antunes médico?
Tudo isto me fez ter saudades da Medicina. Pela primeira vez, tive saudades da Medicina. E, nos últimos tempos, tenho tido saudades. Agora já é tarde porque a escolha foi feita há muito tempo. Mas, se pudesse voltar atrás, talvez tentasse manter alguma relação com a Medicina.


Enquanto não pôde viver da escrita, viu a Medicina como uma forma de ganhar a vida.

Eu até gostava de ser médico. O meu pai era médico, cresci no meio dos hospitais, mas estar internado é outra coisa muito diferente. Não há nada de mais horrível do que uma noite passada num hospital.


As noites passadas num hospital duram mais?

São infinitas. E é aí que aparece o desamparo. Não estou a falar de mim, estou a falar de uma maneira geral. É óbvio que senti tudo isto. Sofri muito e, ao mesmo tempo, toda esta experiência também me enriqueceu. Sai-se disto com mais amor pela vida e com a sensação de que é uma honra estar-se vivo.


Sai-se mais sereno?

Não lhe sei responder, porque nunca fui uma pessoa de grandes exaltações. É claro que tomei consciência da minha finitude, porque todos vivemos em função de eternidades. Uma pessoa de 20 anos pensa que tem à sua frente 50 anos e, para ela, esses 50 anos não vão passar nunca. A minha mãe, por exemplo, vive em função de eternidades de seis meses. E, na prática, esses seis meses são tão compridos como os 50 anos do jovem de 20 anos. Quando a Maria Antonieta pedia ao carrasco «só mais um minuto, senhor carrasco», para ela aquele minuto era eterno.


Virginia Woolf dizia que, a partir de certa idade, os dias são uma eternidade, mas os anos passam a correr.

E Churchill dizia que os anos passam num instante, o que custa a passar são os minutos. Mas quando os escritores querem parecer inteligentes, eu desconfio sempre. A atitude de sedução sempre me irritou e irrita-me cada vez mais. É isso e, sobretudo, a amargura. Há para aí um cronista num jornal diário que deve ser a pessoa mais infeliz do mundo. Destila tanto fel… Meu Deus, como se pode ser assim?


Está a falar de Vasco Pulido Valente?

É uma dedução sua. Não o conheço, mas o que ele escreve faz-me imensa impressão. E pena. Não me irrita, não me enerva, não me exalta, não me comove. Faz-me pena. Não gosto de pessoas amargas porque são mal agradecidas. A ingratidão é o pior sentimento que pode existir.


Sempre prezou a sua privacidade. Hesitou ao escrever aquela crónica na qual se expôs como nunca antes o havia feito?

Para quem souber ler, exponho-me muito mais nos livros. Em O Meu Nome É Legião, por exemplo, aqueles garotos vieram de dentro de mim, são parte de mim. Quando me fala em serenidade, é evidente que estou muito mais sereno, muito mais seguro do valor do meu trabalho.


Depois da operação, foi difícil voltar a escrever?

Muito difícil. Não era capaz, cansava-me. A seguir à operação, nem sequer escrevia. Estava sentado numa cadeira, sem ler, sem fazer nada, a olhar para a parede. Estive quase dois meses assim. Não tinha nada dentro.


Tinha um romance começado?

Sim, tinha começado a escrevê-lo seis ou sete meses antes. E, como nunca tinha feito uma interrupção, só me perguntava: será que sou capaz de retomar o livro? Depois, devagar, comecei a aproximar-me dele, sem lhe tocar, sem lhe tocar mesmo. Tinha ficado a meio de um capítulo, li o último parágrafo e – é curioso – o livro continuou a sair. É muito estranho porque eu costumo demorar mais de um ano a fazer a primeira versão e, quando chego ao fim, já mal me lembro do princípio. Releio e tudo aquilo faz sentido, tudo aquilo está certo. É uma espécie de trabalho interior que nada tem a ver comigo. Ou melhor: tem a ver comigo, eu não sei é de que parte de dentro de mim é que aquilo vem. Acho que agora estou a escrever como nunca escrevi. Falam muito no Manual dos Inquisidores, mas julgo que foi a partir de Ontem Não te Vi em Babilónia que a escrita começou a ganhar uma densidade, uma espessura, uma força que antes não tinha. Não me importa se me lêem porque escrevo para a eternidade? Claro que me importa, claro que quero que me leiam. Há coisas que já não faço.


Como assim?

Já não minto. Já não componho o perfil. Estou aqui diante de vós, nu e desfigurado. Porque a nudez desfigura sempre. Agora, jogo com as cartas abertas. Agora, jogo póquer com as cartas viradas para cima. Agora, já não há nada escondido, está tudo à vista. E ou a mão ganha ou perde. Nos livros, também já não há truques. São livros que não devem nada a ninguém. Não se nota ali a voz de ninguém, não há ali influência de qualquer outro autor. Nada. Zero. É a minha voz inteira. E a conquista da minha própria voz foi talvez o mais importante que me aconteceu. Não há ninguém a atravessar-se no meu caminho. Se não nos medimos com os melhores, não vale a pena medirmo-nos. Atingir as alturas de Tolstoi ou de Horácio é muito difícil, mas é aí que eu quero estar. E, ao mesmo tempo, isto tem-me permitido admirar o trabalho de outras pessoas que não considero grandes escritores…


Mas admira-lhes o quê? O esforço?

Esforço faz lembrar ciclismo, não é? Admiro o esforço e, quando ele é digno, respeito-o. Embora, em Portugal, se publique demasiado. As pessoas não sabem o quanto custa escrever. Escrever é tremendamente difícil. Não precisamos de mais de – vá lá, para ser generoso – 200 ou 300 livros. Continuo a ficar surpreendido com o aluvião de livros, livros completamente supérfluos, que se editam. As pessoas não têm vergonha de ter feito aquilo? Não são escritores, são pessoas que fazem livros. Uma coisa é ser escritor, como Torga (por exemplo) o era. Outra coisa é fazer livros, o que agora toda a gente faz. Fico pasmado quando vejo jornalistas, advogados ou apresentadores de televisão que se apresentam como escritores. Já reparou?


Ao regressar ao livro, sentiu-o como seu?

Claro que sim. Ninguém escreve assim. Não tenho a menor dúvida de que não há, na língua portuguesa, quem me chegue aos calcanhares. E nada disto tem a ver com vaidade porque, como sabe, sou modesto e humilde. A doença trouxe-me isso. Já não estou a fazer tratamentos e só lá mais para o final do ano é que voltarei a fazer exames. Tudo isto dá-me uma grande serenidade, porque olho para as coisas com mais distância. Estive muito perto da morte e palavra de honra que é muito mais fácil do que se imagina. A ideia pode angustiar-nos e apavorar-nos, mas quando se está mesmo ao pé dela é muito mais fácil do que se pensa. Lembre-se do que diz a última frase de Os Thibault, o grande romance de Roger Martin du Gard: plus simples qu’ on y pense, mais simples do que se pensa. E é, de facto, mais simples do que se pensa, menos assustador do que se pensa.


Quando ouve a palavra cancro, é a morte que vê à sua frente?

Por mais que racionalmente pensemos que o cancro se cura, associamo-lo à morte. Pedi sempre para não me mentirem e, por isso, quando muito francamente me dizem que tenho um cancro, o que vejo à minha frente é a morte. Não é ver a morte à minha frente, é vê-la dentro de mim. Já está cá, é uma parte de nós. E é mais fácil do que se pensa, não requer coragem, apenas dignidade e elegância. Perguntava muitas vezes: tenho-me portado de uma maneira digna?


A quem é que perguntava?

Ao médico e a uma ou duas pessoas que faziam o favor de se interessar por mim. Não há nada de mais horrível do que a cobardia. Compreendi a frase de Hemingway, quando quiseram saber o que é que ele achava da morte e a resposta dele foi: «Outra puta.» Porque a morte é sempre uma puta e, a uma puta, não se pode dar confiança. Uma amiga, que é minha médica, disse-me: «Tens que aprender a viver com isto.» Não, não tenho. Não tenho que viver com um filho da puta. Eu não vivo com um cabrão, quero destruí-lo, não quero viver com ele.


Tem que ter pulso firme?

Tem que lutar contra aquilo. O cancro habita-me, está dentro de mim. E queria portar-me com a mesma dignidade com que acho que me portei na guerra. Não sei se ele se importa com a minha atitude ou não, mas, em princípio, é um pesadelo que estará terminado. De qualquer maneira, sei que, mais tarde ou mais cedo, a puta virá. Só espero ter tempo para acabar o meu trabalho.


Na guerra, já tinha visto a morte de perto.

Na guerra, era mais fácil porque era uma qualquer coisa de exterior, podia sempre agarrar numa arma. Em África, tínhamos inimigos (digamos assim) e estávamos armados com morteiros, espingardas e metralhadoras. Eu agora tinha a morte dentro de mim. E é horrível estar grávido da morte. Portanto, o tratamento é como fazer um aborto desse monstro que nos quer destruir. Quando ia às sessões de radioterapia, encontrava pessoas de todas as idades. Lembro-me sobretudo de uma rapariga de 20 anos que usava uma cabeleira postiça. Percebia-se logo que a cabeleira era postiça, mas ela usava-a com tanta dignidade que era como se fosse uma coroa. Uma coroa de rainha. E era, de facto, uma rainha que ali estava.


A doença torna-nos mais doces ou, pelo contrário, mais amargos?

No meu caso, fez com que se acabassem os disfarces, as máscaras, as meias-frases e as meias-tintas. Agora digo o que penso e o que sinto. Estou a falar com as cartas viradas para cima. E é a primeira vez que o faço. Não há nada escondido, não há nada na manga, não há truques nem tentativas de a impressionar e de a comover.


Sente-se mais livre?

Foi muito difícil. Enfim, muito difícil é exagero…


Exagero porquê?

Porque, ao lado, vi pessoas que estavam muito piores que eu. Pessoas sem esperança, à espera da morte. As minhas hipóteses eram grandes e, por isso, às vezes, sinto-me culpado. Mas é verdade que me sinto mais livre, sinto-me muito mais livre. Livre para escrever, livre para viver, livre para amar. No outro dia, com os meus irmãos, disse ao João [o neurocirurgião João Lobo Antunes] que ele tinha escrito um texto muito bonito. E um deles comentou que nós não dizemos essas coisas uns aos outros. Eu agora digo, eu agora digo. E isso foi uma conquista porque, de repente, tornou-se evidente que esta é a única maneira de viver. Claro que tem que haver dignidade, e que não podem existir pieguices, mas acabaram-se as contenções. O meu avô morreu e, ainda hoje, sinto remorsos por não lhe ter dito que gostava muito dele.


Teve medo de perder a mão?

Claro que sim. Sempre senti esse medo e agora senti-o ainda mais. Tinha imenso medo que a operação, para além de me tirar o cancro, me tivesse tirado a capacidade de escrever. Não sei por que bulas uma vez que aquilo estava nos intestinos…


E, depois, foi ganhando confiança?

A pouco e pouco, fui aumentando o número de horas de escrita e, hoje, já estou no meu ritmo normal. Não quer dizer que não possa morrer daqui a dois minutos, mas fisicamente nunca me senti como me sinto. Talvez me tenha dado força o facto de a minha condição de mortal ser agora muito mais patente.


No momento em que lhe dizem, pensa…

Não penso em nada, é uma surpresa infinita. Quando disse que queria ser operado, responderam-me que era preciso ver se havia metástases. Fiz exames e, como não havia, fui operado no dia seguinte. Entrei no hospital a pensar que tinha hemorróidas e já não sai de lá. Foi tudo muito rápido.


Como se o mundo lhe caísse em cima dos ombros?

O mundo nunca cai em cima de ninguém. Naquele momento, só pensei nos livros. O que vai acontecer aos livros? Levei o que andava a escrever para o hospital, mas não tinha forças para trabalhar. Queria fazê-lo, mas não conseguia. E não queria deixar o livro inacabado porque, no meu caso, um livro inacabado é um livro cheio de redundâncias, de inutilidades e toda aquela ganga que se escreve. Preocupava-me que publicassem um livro mau. Talvez por uma qualquer coquetterie, por estar seguro que estou a trabalhar para daqui a 500 anos.


Já cá não estaremos.

Não sei se morremos assim. Não sei se não ficamos cá. Não sei se Camões está morto. Mas isso não tem importância, eu não sou importante, os livros é que são importantes.

Isso não é falsa modéstia?

Não tenho falsa nem verdadeira modéstia. Sou orgulhoso, não sou vaidoso. Para quê estar a jogar consigo? O que é que eu ganho? Acho graça à maneira como, nas entrevistas, as pessoas se tentam compor, se penteiam para arranjar o cabelo, ajeitam a gravata, retocam a maquilhagem. Para quê? Para seduzir? Para tentar que gostem delas? Para fazer boa figura perante os leitores? Tudo isso já me é completamente indiferente. É uma conquista recente, ganha com tudo aquilo por que passei. Estar aqui à sua frente é a única maneira de estar. E é a primeira vez que o faço.


Como sentiu a reacção dos leitores à sua Crónica do Hospital?

Não sabia que havia tanta gente que gostava de mim.


Sentiu-se menos desamparado?

Não, senti que não merecia tanto afecto.


Apercebeu-se de que o seu testemunho valeu mais do que dezenas de campanhas?

Não. Agora, apenas sinto mais admiração por aquilo a que chamam pessoas comuns. Não existem pessoas comuns. Se temos a arte de fazer com que a alma do outro se abra, então, todas as pessoas são incomuns. Há uma riqueza extrema dentro de cada um de nós. É como nos livros. Ou sabemos tocar no mistério das coisas e, neste caso, o livro é bom. Ou não sabemos tocar no mistério das coisas e, pelo contrário, o livro é mau. Se Deus quiser, hei-de escrever mais alguns livros.


Também já não diz que vai escrever apenas mais dois livros.

Não. Dizia isso para negociar com a morte, para não lhe pedir muito. Porque, na altura, ainda a achava uma senhora digna, o que já não acho. E, portanto, se dantes pedia, agora exijo.


Antes pedia para ver se a morte era boa consigo…

Sim, para ver se ela tinha pena de mim. Agora, já não preciso de pena.

 

 

Visão

27.09.2007

(transcrito por Gonçalo Figueiredo Augusto)

No comments yet

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: