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Baptista-Bastos

Novembro 19, 2007

Nome respeitado no jornalismo e na literatura, Baptista-Bastos é um homem de causas e de princípios. Não conhece o meio termo: sem papas na língua, exagerado muitas vezes, escreve como poucos, entrevista como ninguém, é um polemista temível. Conheceu o desemprego várias vezes ao longo da vida – mas nunca soçobrou.

Eis a sua história, como ele a contou.

Autores – Vamos começar pelo princípio: as tuas origens, os factos mais marcantes da tua vida…
Baptista-Bastos – Fiquei órfão de mãe muito cedo: aos seis anos. Mas tive a sorte de ter um pai fabuloso e uma madrasta extraordinária. O meu pai era tipógrafo, fundador de jornais (Diário Popular e Diário Ilustrado), tendo terminado a sua carreira n’ “O Século” como chefe de tipografia. Era um grande animal branco, homem sumptuoso, chapéu às três pancadas, lisboeta típico, com muita graça – e um grande profissional, considerado um mágico na sua arte.

A – Marcou-te profundamente, ao que parece.
BB – Foi uma sorte minha. Incentivou em mim a moral proletária do trabalho, que me tem acompanhado pela vida fora. No fundo não passo de um operário braçal da escrita e do jornalismo. Não sei fazer outra coisa. Ganho mal a minha vida, mas ganho-a, através da moral e das palavras. Ele trabalhou até ao fim da vida – era impressionante vê-lo a paginar jornais. Era o banquete dele. E isso ficou-me: trabalhar, trabalhar, trabalhar sempre. Todos os dias, trabalho todos os dias – leio e escrevo sempre, diariamente, qualquer coisa. Desde os 18 anos.

A – Valeu a pena?
BB – Eu acho que sim. Estou mais pobre do que quando comecei – mas mais rico porque o jornalismo e a literatura permitiram-me conhecer as mais extraordinárias pessoas. Sabes, a história da minha vida foi atravessada pela história das vidas de muita gente, o que me ajudou também a construir o homem que eu sou: ateu, brigão e sentimental. Mas sublinha bem aí: não sou agnóstico – sou ateu.
A – Quem são essas pessoas cujas vidas tanto te influenciaram?
BB – Tantas que temo não referir algumas. Olha, privei de perto com o Aquilino, o Redol, o Carlos de Oliveira, o Joaquim Namorado, o Manuel da Fonseca, o Zé Gomes Ferreira, o João Abel Manta… Tantos, tantos! Tomaram conta de mim. Mas posso referir também o Manuel Taínha, o Júlio Pomar, a Maria Keil, o Jorge de Sena, o Lopes-Graça, o Cochofel – a resistência, afinal. Eu era um miúdo no meio de gigantes, no meio do que havia de melhor neste país.

A – E o que é que daí resultou?
BB – Que criássemos a nossa moral particular e a nossa ética de rigor. Esta gente não permitia uma leviandade ou uma traição. Mas já agora deixa que te diga que n’ “O Século” conheci uma figura maior: o Acúrcio Pereira, um jornalista e um chefe de redacção como nunca vi. Entrei para “O Século” com 18 anos, com uma redacção que metia medo. Era conhecida por “Universidade”. O Zambujal chama-lhe “A Catedral”. O Acúrcio puxava por nós todos, que trabalhávamos rodando em todas as secções.

A – Com o teu feitio tiveste dificuldade em adaptar-te?
BB – Eu era muito senhor do meu nariz, mas que remédio… Trabalhava também no “Século Ilustrado” e ganhei fama de polemista terrível. Eu fazia comentários de cinema, o Redondo Júnior de teatro. Era cá uma dupla… No meu caso aquilo era mais uma tribuna política. Nos EUA o McCarthismo estava em grande vigor – e isso servia-me de pretexto para fazer paralelismos comparativos com a realidade portuguesa. Lembro-me de uma crónica em que condenava a traição do Elia Kazan e que apareceu depois nas paredes de todas as Faculdades de Lisboa. Ganhei uma certa notoriedade que me envaideceu – mas que simultaneamente me enfraqueceu.

A – Porquê?
BB – Tinha 18 anos. Era muito novo. Durante um ou dois anos fiquei um tipo muito presumido, até soberbo.

A – E hoje?
BB – Isso passou-se, e passou-me, há muito tempo. Um dia, estava eu a ler a Bíblia, que é um texto a que recorro frequentemente, estava a ler o Levítico, deu-me cá um estremeção, sabes, sobre a soberba e a arrogância, e disse para mim: não estás no bom caminho. Comecei a ficar menos categórico e mais com a ideia de que os outros podem ter também razão.

A – Mas isso não te impediu de teres participado na Revolta da Sé, em 1959…
BB – Fui aliciado pelo Urbano Tavares Rodrigues. Ele ainda me quis explicar uma série de coisas, mas eu cortei: “Não digas nada. Estou na revolução!”, coisas românticas. Mas a verdade é que uma certa ração de romantismo é essencial para que haja algum júbilo na condição humana. Fazer coisas por romantismo é fantástico.

A – Só foste romântico na Sé?
BB – Fiz toda a espécie de disparates por romantismo. Mas também fiz coisas belas, que hoje me arrepiam quando delas falo ou nelas penso. Um dia fui encarregado de lançar uns panfletos no cinema Condes, onde passava o filme “E tudo o vento levou”. Fui para lá de gabardine, à Humphrey Bogart, escondendo os papéis. Eu estava no 2º Balcão, e havia outro camarada no 1º. Um do lado esquerdo, outro do direito. Lançámos os papéis, estabeleceu-se um burburinho na sala, as luzes acenderam-se, a polícia a apitar, um turbilhão de pessoas a descer pelas escada, a escapar. Quando estou também a descer vejo o meu camarada, que era um pouco mais velho, com um lenço na boca cheio de sangue. Teve uma hemoptise, passei-lhe a mão pelo ombro, e fui com ele por aí fora, atravessei a avenida para o elevador da Glória, acartei-o pela calçada acima, do lado direito havia uma cabine telefónica, as pessoas estavam tão preocupadas consigo próprias que nem deram por nada, pu-lo no meio do chão, liguei para um número que me tinham dado, perguntei o que é que devia fazer, disseram-me para sair dali e ir para um banco de jardim esperar, assim fiz, e lá apareceu o Alexandre Cabral com um carro, levando esse nosso amigo, que ainda hoje é vivo…

A – Ao que sei, o episódio da revolta da Sé veio, mais tarde, a ter consequências na tua vida…
BB – Fui denunciado por uns canalhas. Os patrões d’ “O Século” chamaram-me no dia 10 de Abril de 1960, disseram-me “Você esteve metido nessa coisa”, e o Carlos Alberto Pereira da Rosa perguntou-me: “Olhe cá, isso já se passou há uma data de tempo e hoje, em idênticas circunstâncias o que é que fazia?”. Respondi: “A mesma coisa”. Apertou-me a mão e disse-me: “Não pode trabalhar mais neste jornal. Veja lá no que se vai meter”. Tinha 25 anos, fiquei apavorado, pensei que tinha sido denunciado na PIDE, quis ir falar com o meu pai e encontrei o Augusto Abelaira junto do Solar do Vinho do Porto, disse-lhe o que se estava a passar e ele levou-me a casa do Jacinto Baptista – e fiquei a saber que andávam todos metidos no mesmo e passei a uma semi-clandestinidade. Pensei então ir para Paris, o Urbano conseguiu-me arranjar documentos, vendi o carro que tinha… Neste intervalo a PIDE tinha ido ao Século para saber o que se passara comigo, mas os patrões disseram que não tinha nada a ver com a política, garantiram que eu tinha sido despedido por ter publicado no Século Ilustrado três páginas de fotos do Fidel sem terem ido à censura. Conto isto porque quero salientar a grandeza daqueles patrões. Se compararmos com o que se passa agora…

A – Foste para o desemprego, portanto.
BB – Claro. Traduzia livros e vivia com muitas dificuldades.

A – É mais ou menos por essa altura que conheces o Fernando Lopes, trabalhando com ele em vários projectos.
BB – É verdade. O Lopes é um velho camarada de tudo. Quando vivi na tal semi-clandestinidade, estive aboletado em casa dele. Fizemos o “Belarmino” e mais outros filmes para a Televisão. O meu livro “O Secreto Adeus” foi escrito junto dele, na Ericeira, para onde tínhamos ido em Fevereiro de 62, para fazermos a adaptação do “Domingo à Tarde”, do Namora. Estava um frio de rachar, tínhamos 30 dias para fazer o trabalho, despachámos a adaptação em 10 e nos outros 20 escrevi a primeira versão daquele que foi o meu primeiro livro de ficção, mas que na verdade era um livro contra o jornalismo que se fazia naquela altura e que era muito mau. Olha, ainda hoje tem actualidade… Foi um êxito.

A – Continuas muito ligado ao Fernando Lopes…
BB – Gosto muitíssimo dele. Estamos a envelhecer com dignidade e decência, ao longo de cinquenta anos de amizade sem beliscões. Preocupo-me com ele, ele preocupa-se comigo. É, além disso, um dos maiores cineastas europeus, e um intelectual muito brilhante da minha geração que ofereceu à cultura portuguesa gente extremamente talentosa, e até genial!, em múltiplos sectores de actividade.

A – Foi com a ajuda dele que durante uns tempos trabalhaste para o Telejornal da RTP…
BB – Também é verdade. Um dia disse-me que havia um tipo que queria falar comigo. Era o Manuel Figueira, director na RTP, um homem do regime, marcelista, mas de grande qualidade humana. À primeira vista não gostei do seu aspecto. Mas ele era um sedutor e no final do almoço – no “Varina”, no Parque Mayer – eu estava rendido à sua dialéctica, ficando seu amigo até à morte. Ainda hoje venero a sua memória. Diz-me o Figueira: nós sabemos que você se prepara para sair do país, mas eu vou-lhe fazer uma proposta: quer ir trabalhar nos noticiários da RTP? Tem é que ser com outro nome, embora isso não passe de um pró-forma. Hesitei e perguntei: qual é o compromisso que tenho que fazer? Respondeu: nenhum, só tem que fazer notícias assinando Manuel Trindade. Fui e aí ganhei a vida durante uns meses, com o apoio e a solidariedade de pessoas que pensavam o oposto do que eu pensava: o Carlos Miguel de Araújo, monárquico e miguelista, ainda hoje um querido amigo; o Henrique Mendes; o Gomes Ferreira; o Fialho Gouveia; o Manuel Caetano, irmão do Marcelo.

A – Foi sol de pouca dura – voltaste a ser despedido…
BB – Foi o César Moreira Baptista, então secretário nacional da Informação e mais tarde ministro do Interior de Caetano, quem deu instruções nesse sentido, dizendo num ofício: “Esse senhor é um contumaz adversário do regime”. E era mesmo…

A – Como é que te safaste no desemprego outra vez?
BB – Entrei pouco tempo depois para o “República” e daí fui para o Brasil…

A – Para o Brasil?
BB – O meu amigo Raul Solnado foi contratado pela TV Rio e levou-me como seu secretário – cama, mesa, roupa lavada e dinheiro no bolso. Chegámos ao Rio de Janeiro quando aconteceu o golpe militar contra o Presidente Goulart. Mandei logo uma série de telegramas para o “República”, mas o chefe de redacção, o Artur Inês, respondeu-me a dizer para eu mudar de tom que a censura estava a cortar os meus textos todos… Assisti a cenas de violência e perseguição incríveis. Mas percorri o Brasil todo e tive a possibilidade de conviver com pessoas como Rubem Braga, Otto Lara Resende, Vinícius, Péricles do Amaral (secretário do Luís Carlos Prestes na coluna Prestes) e tantos outros – e isso caldeou também a minha maneira de ser e de ver o mundo. Foram oito meses marcantes.

A – De novo em Portugal, arranjaste emprego?
BB – Voltei para o “República”. Mas um dia recebo um telefonema do dr. Guilherme Brás Medeiros, patrão do “Diário Popular”, a perguntar-me se poderia almoçar com ele. Eu julgava que era uma brincadeira, mas ainda perguntei: quando? Hoje, disse ele. Foi a 22 de Fevereiro de 1965. No Parque Mayer, mais uma vez. No final do almoço, avança: quer ir trabalhar para o “Diário Popular”? Quero, disse logo. Quem puxou os cordelinhos disto tudo foram o José de Freitas, o Jacinto Baptista e o Mário Ventura Henriques. Fui aceite por unanimidade pela redacção. Disseram-me: sabemos muito bem o que você pensa, mas os patrões do jornal nunca cortarão uma palavra sua. E quando tive problemas com a censura o dr. Guilherme Brás Monteiro esteve sempre ao meu lado. Nunca assinei qualquer contrato – um aperto de mão bastava. Tenho saudades da honra desse tempo. Não gosto nada do passado, mas não posso deixar de sublinhar que havia um sentido de honra que desapareceu.

A – Quanto tempo trabalhaste no “Diário Popular”?
BB – Saí após 23 anos de intenso trabalho. Foi o mais belo período da minha vida profissional. N’ “O Século” deram-me as ferramentas; no “Popular” escancararam-me as portas e incitaram-me a expender a minha criatividade. Era uma redacção sumptuosa. Recordo, com emoção e orgulho, os nomes de Urbano Carrasco, um dos maiores repórteres portugueses de sempre; José de Freitas, Jacinto Baptista, Abel Pereira, José de Lemos, Alfredo Marques, Álvaro de Andrade, Mário Rocha, Ricardo Ornellas, Aurélio Márcio, António Rêgo Chaves, João Paulo de Oliveira, Manuel Magro, Mário Ventura Henriques. E Chico Rodrigues e Manuel Pereira Rodrigues, excepcionais de faro para a notícia. Havia outros, claro!, mas desejo deliberadamente omiti-los: nada tinham a ver comigo e muito pouco com o jornalismo, tal como eu o entendo. Cito, também, os grandes repórteres-fotográficos João Ribeiro, José Antunes, Corrêa dos Santos, Eurico de Vasconcelos, Miranda Castela. Foram estes os meus companheiros inesquecíveis. Os meus camaradas autênticos, envolvidos, como eu, emocionalmente, em dar continuidade a um admirável projecto jornalístico que nos fora legado.

A – E saíste porquê?
BB – No imediato 25 de Abril, as coisas complicaram-se, e comecei a sentir-me muito mal (eu e outros) com o rumo “editorial” que o vespertino tomava. Registaram-se as traições e as ambiçõezinhas pessoais. O costume. Saí, sem levar comigo um tostão. Ganhava sessenta contos mensais.

A – Foste para onde? Há aí um novo período difícil da tua vida profissional…
BB – Trabalhei, durante seis meses, para o João Soares Louro, fui para o “Europeu” e segui para “o diário”, onde experimentei alguns dos mais nefastos momentos do meu trajecto profissional. Criaturas que possuíam a carteira do sindicato e que nada tinham a ver com jornalismo: eram, apenas, sargentos políticos dispostos a tudo. Desejo colocar os nomes desses senhoritos à margem desta conversa, desejadamente asseada. Claro que me senti feliz em trabalhar com gente como o António Borga, o Luís de Barros, a Teresa Horta, o Joaquim Benite, o Alferes Gonçalves, o João Paulo Guerra, o Sérgio Figueiredo… Deixo para um texto memorialístico que estou a escrever o cuidado de escarmentar quem é desprezível. Mas quero fazer uma grande ressalva: os cuidadosos avisos que me foram feitos pelo José Sucena, querido amigo e homem de bem. “o diário” foi uma experiência de cinco meses, inesquecível pela negativa.

A – Conheceste de novo o desemprego, portanto.
BB – Pedi trabalho em tudo o que é Imprensa portuguesa. Nada. O então director do “Público”, contou-me o João Mesquita, disse que eu não entrava porque era… amigo dos cubanos. Outro, um arquitecto que se diz jornalista, e é um arrebatado medíocre, além de ser uma figurinha hilariante, e esteve na direcção do “Expresso”!, fez-me uma malandrice do pior que possas imaginar. Já o ferrei na praça pública: certa noite, estendeu-me a mão; ficou com ela no ar. Estas coisas devem ser feitas com testemunhas, para que as histórias não sejam contadas de outra maneira. Assistiram ao higiénico acto o José Quitério, o João Carreira Bom, a Maria José Mauperrin, e alguns mais. Contos largos, também assomados na memorialística que redijo. Desempregado, com sete pessoas a meu cargo, lancei-me à tradução, a escrever discursos para empresários e, até, para políticos… de Esquerda, socialistas ou mais ou menos… A Hermínia Rosa, da Caixa dos Jornalistas, agora destruída por um governo… dito socialista… mas ferozmente déspota, autista e autoritário, a Hermínia Rosa aconselhou-me a inscrever-me no Desemprego. Assim fiz. Tinha 56 anos e esperei, na secção do Saldanha, a hora de ser atendido. O Mário Crespo, então pivô na RTP, soube do assunto e enviou a Isabel Horta a fazer uma reportagem do caso. Eles realizaram um comoventíssimo trabalho jornalístico sobre a situação de um camarada deles colocado numa situação extrema. Crespo assinalou os prémios e as traduções de livros meus. A reportagem teve amplas repercussões, e foi vista em várias partes do mundo. Ainda hoje não consigo rever as imagens da cassete que o Mário Crespo me enviou. E estarei sempre grato tanto a ele quanto à Isabel. E, também, a Manuel Luís Goucha, que me convidou, propositadamente, para aparecer num programa dele. Não conhecia pessoalmente o Goucha, nem sabia o que ia lá fazer. Eis senão quando, directo no ar, o Goucha diz: “Este senhor é um dos maiores jornalistas portugueses, e está desempregado. Isto é uma vergonha que desejo assinalar!” Eu não sabia onde me meter, embaraçado e comovido, e o Goucha, então, abraçou-me, ele também muito comovido.

A – Sei que há também um episódio edificante em que entra o José Eduardo Moniz…
BB – Sim, o Moniz (que fora meu estagiário no “Popular”), então figura poderosa na RTP, chamou-me, a instâncias do João Soares Louro, recebeu-me num gabinete do tamanho de um rinque de patinagem, eu estava ali um pouco atrapalhado, embaraçado e, até, envergonhado, ele abre-me os braços, diz: “Você é o meu mestre! Não era preciso o Soares Louro chamar-me a atenção para a sua situação, eu já estava disposto a telefonar-lhe. Vou já chamar um rapaz muito prometedor, que lhe irá arranjar um trabalho”. O rapaz prometedor, qualquer coisa Nogueira, estava cheio de gel no cabelo, casaco de largos ombros descaídos, calças a condizer. O Moniz repetiu, com a gravidade que talvez o momento não recomendasse (eu preferia que a cena fosse mais alegre): “O Bastos foi o meu mestre! O meu mestre!”. Eu, encolhido, sem saber o que dizer, balbuciei: “Mestre, semestre e trimestre”. Aprazaram comigo que me telefonariam dali a dois dias. Até hoje. Coitado do Moniz! Tenho muita pena dele! Quanto ao resto, aguentei-me, meu amigo, aguentei-me! Cheguei onde desejava chegar com algumas mazelas e alguns desgostos mal remendados. Divirto-me com os vencedores do momento. Mas cheguei são e salvo onde desejava chegar!

A – A conversa já vai longa e quase não falámos de literatura portuguesa nem da da tua obra literária.
BB – A minha actividade literária complementa-se com a minha actividade jornalística. A disjunção, pretendida por alguns indivíduos, entre jornalismo e literatura, é mais de ordem corporativa do que de ordem vital. Escrevo todos os dias, leio todos os dias. Publico livros muito espaçadamente. Nada tenho a ver com estes realejos literários que por aí se editam. Tenho profundíssimo respeito, admiração e consideração por Agustina, Saramago, Mário Cláudio. Não vendem fruto com bicho. O resto, deixou de me interessar. A maioria está a escrever sobre a vidinha, sem ter experimentado a vida, sem a ter arriscado. São escritores que vendem muito bem, põem gel no cabelo e na escrita. A literatura, como o jornalismo, deve ser moral em acção, e ambos são tão perigosos como a prática do alpinismo. Mas quanto aos poetas, esses, enchem uma lista imensa, enchem a minha vida de regozijo.

A – Estás muito ácido em relação à nossa prosa actual…
BB – Penso que os escritores têm de conhecer a matéria com que trabalham – para poderem ir para a cama com ela, para ir para o leito nupcial e para poder brincar com o idioma. E nós só aprendemos isso – e nunca aprendemos totalmente – frequentando os clássicos.

A – Quem são os clássicos a que te referes?
BB – Por exemplo, Vieira, Pascoaes, Carlos Oliveira, D. Francisco Manuel de Melo, Aquilino, Tomás de Figueiredo. Temos que começar a recuperar esta gente.

A – Esta gente?
BB – É, é. Esta gente que cito é que representa rigorosamente aquilo que podemos classificar de cultura portuguesa. E esta gente foi quem deu à Pátria a sua fisionomia específica. Não são os políticos que dão a fisionomia à Pátria. Isso é com os escritores, com os artistas.

A – Tens alguma coisa contra os políticos?
BB – Contra estes políticos tenho tudo e mais alguma coisa. Atingiram o grau superlativo da mediocridade. Pode-se estar em desacordo com os nomes que vou citar – mas eles marcaram decisivamente uma época: Mário Soares, Álvaro Cunhal, Francisco Sá Carneiro, Vasco Gonçalves. Cada um deles, à sua maneira, e com as características culturais próprias, tinham um projecto político-ideológico próprio para Portugal. E tinham, esses quatro homens, convicções. E esta gente de agora não tem convicção nenhuma. E andam neste pequeno jogo de interesses que só favorece o mais torpe e o mais feroz dos capitalismos. E os intelectuais, os escritores portugueses, assistem a isto e… nada. Não estão interessados no compromisso moral com a sociedade e o seu povo, contrariando, aliás, as linhas tradicionais da cultura portuguesa.

A – Continuamos sem falar dos teus livros… Que títulos gostarias que não fossem esquecidos?
BB – Os meus livros… Creio que dois ou três vão ficar, talvez “Cão Velho entre Flores”, talvez “Viagem de um Pai e de um Filho pelas Ruas da Amargura”. Do jornalismo, as entrevistas, talvez “As Palavras dos Outros”. Nunca tive pressa. As coisas vão chegando. Um pouco atrasadas, às vezes, mas vão chegando. Não te esqueças que Portugal vive no lodaçal da amnésia histórica. Um país que esqueceu Aquilino, que não lê Tomaz de Figueiredo, Carlos de Oliveira, Manuel da Fonseca, Mário Dionísio, os dois Camilos, o Castelo Branco e o Pessanha; que desconhece Cesário Verde, e dois poetas tão ou mais importantes do que Pessoa: Nemésio e Jorge de Sena – é um país condenado.

A – Se bem te conheço, estás longe de desistir seja no que for. Fala-me dos teus projectos.
BB – Entreguei, ao meu editor, a ASA, um romance, “As Bicicletas em Setembro”, título extraído a um dos mais belos poemas de Eduardo Guerra Carneiro, parceiro de bares, de noitadas, de jornalismo e de literatura. Vai também ser editado um álbum “A Lisboa de Baptista-Bastos”, com belíssimas aguarelas de João Abel Manta, selecção de textos sobre a cidade, apresentação e aparato crítico do prof. Ernesto Rodrigues. Há o texto memorialístico de que já falámos. E pretendo ordenar um novo livro de crónicas.

A – Não te vou perguntar onde estavas no 25 de Abril, mas gostaria de saber o que esperavas que essa data histórica proporcionasse ao jornalismo e à literatura. A 32 anos de distância, que balanço?
BB – O 25 de Abril foi o dia do meu coração. O Álvaro Guerra estava metido na conspiração e perguntou-me se eu estava disposto a nela entrar. Disse-lhe que não. Todas em que me tinha metido haviam falhado, porque estávamos no meio dos dois sistemas de mundo que, então, se digladiavam. Tinha filhos e não estava disposto a permitir que fossem para a guerra colonial. Preparava-me, pois, para ir embora, talvez Inglaterra, não sei bem. Não acreditava em nada ou quase em nada. Como agora, aliás. Dá-se o 16 de Março, nas Caldas da Rainha. Vai o Marcelo à Televisão e declara que está tudo sob controlo. A partir daí percebi que algo de muito importante ia ocorrer. Quando o tirano diz que controla, é porque já não controla coisíssima nenhuma. Mas os anos posteriores ao 25 de Abril naufragaram na mais atroz mediocridade: escritores e jornalistas que nunca o serão, à força de o quererem ser. Tanto o jornalismo como a literatura são actividades muito sérias. E eu não gosto nada do que por aí vejo: prosa engravatada ou de casaco de peles. Entretanto, continuo ateu, brigão e sentimental.

Ribeiro Cardoso

TALENTOSO E EXCESSIVO

Tem um corpo enorme, cabelos brancos e coração ao pé da boca. A sua voz roufenha e o seu sorriso, por vezes enigmático e mordaz, são bem conhecidos dos portugueses graças aos programas “Conversas Secretas” e “Cara-a-Cara”, que há anos assinou na SIC e marcaram um estilo nas entrevistas televisivas – como antes o seu talento tinha marcado o jornalismo escrito.
Nome grande da nossa imprensa e da nossa literatura da segunda metade do século XX, Armando Baptista-Bastos, BB para os amigos, nasceu em Lisboa, no Bairro da Ajuda, em 27 de Fevereiro de 1934, tendo frequentado a Escola de Artes Decorativas António Arroio e o Liceu Francês. Quanto a universidades, frequentou a maior de todas: a da vida, que subiu a pulso sem nunca renegar as linhas mestras do exemplo paterno – e por isso pagando um preço alto, como se pode ver na fabulosa história de vida que conta nestas páginas.
Casado, com três filhos licenciados – um arquitecto, um jurista e um psicólogo clínico – nos seus 72 anos de vida intensa já não é um homem da noite nem de excessos e vive feliz e realizado, mas não acomodado, junto da mulher que ao longo de uma vida sempre foi o seu esteio maior, tudo lhe aguentando: chama-se Isaura, tem cabelos prateados e um sorriso bom entre todos.
Com 19 livros publicados até ao momento – ensaios, romances, contos, entrevistas e crónicas (nomeadamente sobre Lisboa) -, autor de admiráveis prosas em jornais e revistas, continua a produzir e cheio de projectos. As suas memórias, aqui anunciadas, serão seguramente um acontecimento.
Privilegiando sempre a conversa, o convívio e os afectos, é vê-lo todas as Sextas-Feiras no Solar dos Presuntos, à mesa com os seus parceiros da tertúlia “Os Empatados da Vida” – distribuindo ferroadas à esquerda e à direita (sobretudo à direita…) e contando casos e histórias respeitando escrupulosamente o ditado popular “Quem conta um conto acrescenta-lhe um ponto”. Quem o conhece e dele gosta, garante mesmo que acrescenta sempre muitos pontos… Mas ninguém leva a mal. Ah, é verdade: os livros do BB estão traduzidos em várias línguas, têm sido objecto de estudos e teses de licenciatura em universidades portuguesas e estrangeiras e à sua obra – jornalística e literária – já foram atribuídos numerosos e prestigiados prémios.

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