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Precisa-se de um novo paradigma

Novembro 19, 2007

José Sócrates transformou o Partido Socialista numa metáfora da rapacidade do cinismo neoliberal, cujas pretensões radicam em funções repressivas e no poder cego da imanência do económico sobre o humano.

A Direita não se entende consigo própria. Assim sendo, como poderia entender-se com o País? Os seus chefes putativos, Luís Marques Mendes e José Ribeiro e Castro não possuem «carisma» porque não dispõem de qualquer projecto, minimamente verosímil, para impulsionar alguma alteração ao «sistema». Por outro lado, o «sistema» está viciado de contradições, reflexo da crise do capitalismo, que ameaça prolongar-se, num estertor alargado por décadas e numa renovação sem ética, sem nobreza e sem generosidade.

No PSD, as pessoas mais capazes sumiram-se nos negócios proporcionados pela sua passagem por lugares de decisão. O CDS é um mal entendido histórico, com alguns intermezos cómicos, de que Paulo Portas é, até agora, o exemplo mais esbaforido. Quem se opõe a Mendes? O inesquecível Luís Filipe Meneses, cuja voz doce e macia costuma funcionar como sedativo. Telmo Correia é antagonista de Ribeiro e Castro, assim como Pires de Lima. Nenhum deles possui ideias de seu. Mas apresentam-se de semblante grave, austero e firmemente apostados em estar ao serviço da Nação. Ganham a vida nos negócios e na gestão, e auferem uns trocos como deputados em S. Bento ou nos fofos assentos do Parlamento Europeu.

A Esquerda, ou o que resta do seu naufrágio, constitui uma negação abstracta ou niilista. O PS deixou de o ser, se é que alguma vez o foi. O PCP resume-se a uma espécie de travão aos desmandos do poder, mas perdeu a força e a influência de que dispôs durante décadas. No entanto, ainda representa uma barreira ao definhamento progressivo das grandes conquistas de Abril.

A ascensão da mediocridade é estimulada nas épocas em que a paralisia cívica coloca em órbita o que de pior existe na sociedade. Olha-se para o Parlamento e o resultado é desolador. Observa-se a actividade política, os maneios dos seus protagonistas e as matreirices governamentais e enfastiamo-nos. A cultura «democrático» insiste em que devemos ser prudentes quando criticamos a Assembleia da República. Aparentemente, a curiosa instituição é incriticável por imaculada. Mas a verdade é que os deputados fornecem ao País a péssima imagem de oportunistas que ali estão para orientar a vidinha.

José Sócrates transformou o Partido Socialista numa metáfora da rapacidade do cinismo neoliberal, cujas pretensões radicam em funções repressivas e no poder cego da imanência do económico sobre o humano. A razão estóica que se opõe a este desígnio engendra uma moral prática filiada nos antigos valores da dignidade e da solidariedade. Coisas anacrónicas, diria Telmo Correia, garantindo uma nota de rodapé na História por ter insultado a revolução que lhe permitiu ser o que é, e dizer o que diz.

O ataque ao Estado e às instituições que caucionam a democracia está a ser cuidadosamente perpetrado por este Executivo, através  da destruição das relações de trabalho estáveis, do emprego e da identidade profissional; do favorecimento do «privado» nos sectores mais sensíveis da sociedade; e da perturbação do sistema social no seu todo. O pior é que, independentemente desta panaceia, Sócrates não apresenta nenhuma alternativa original. Apenas visões unilaterais e concepções meramente quantitativas, inspiradas nas doutrinas dominantes do neoliberalismo.

Perante isto, que pode fazer a Direita, senão aplaudir? Quando se caustica Marques Mendes por ausência de oposição, a verdade é que as políticas de Sócrates correspondem aos breviários da catequese do PSD. Mendes unicamente faz-de-conta, e assiste a essa peculiar «desordem democrática» com a serenidade de quem aguarda, paciente, a sua vez, ou a de outro qualquer do seu partido.

O CDS, que sempre viveu na babugem dos partidos de poder, e que, desde praticamente 1975, sempre esteve nos centros de decisão, ou em funções fundamentais nas grandes empresas privadas, ou pró ou para estatais, existe na ambiguidade de aproveitar dos ingredientes de que se alimentam as crises. Uma Direita que nem sequer foi charneira, almofariz de um nacionalismo bafiento, de um ressentimento histórico que se propaga em tentativas de regressão e de expressões discursivas sem direcção nem sentido.

A crise actual revela dois problemas, para cuja solução o neoliberalismo não é remédio: o esgotamento do capitalismo contemporâneo e do Estado-providência nas suas formas burocráticas. E há, ainda, que redefinir os diferentes poderes públicos, entre os quais a natureza dos sindicatos perante as modulações de uma sociedade que põe em causa todas as formas anteriores de actuação e de concertação.
Não é com estes partidos, à Esquerda e à Direita, que vai encontrar-se um outro paradigma.

APOSTILA 1  –  Dilecto, recomendo-lhe «A Felicidade e a Tranquilidade da Alma», de Séneca, editado pela Esquilo, com introdução, notas e tradução directa do latim por Ricardo Ventura, e posfácio de José Carlos Fernández. São grandes textos, apropriados para esta hora dramática em que vivemos, porque são textos de sempre. Devo dizer aos meus pios leitores que um dos meus livros de cabeceira é «Cartas a Lucílio» de Séneca, claro!, assim como a Bíblia de Jerusalém, manuseio diuturno, feliz e eficaz. Montesquieu escreveu: «Não há desgosto que não seja dissipado por uma boa hora de leitura». Nem mais! Quando a nefasta melancolia me invade, aí vêm Séneca e os textos sagrados. Dilecto: leia «A Felicidade e a Tranquilidade da Alma». Afasta-o da mediocridade reinante e dominante e dispõe-o bem com a careta humana.

APOSTILA 2 –  Outro livro. «Primeiro as Senhoras –  Relato do Último Bom Malandro», de Mário Zambujal, edição Oficina do Livro. Zambujal é um dos últimos grandes profissionais de Imprensa deste país, um homem decente, íntegro e bom  –  e, ainda por cima, escreve com mão feliz e jubilosa; quero dizer: com gramática, elegância, bom senso e bom gosto. O livro é uma fábula risonha, mas não leviana, do nosso viver português. Um texto muito cuidado, que não agride a inteligência dos leitores e que os trata como pessoas adultas.

APOSTILA 3 –  Alguns leitores pedem-me lhes explique em que consistem Os Empatados da Vida. Aí vai: é um grupo de amigos, que não é vencido nem vencedor (empatou), e se reúne, todas as sextas-feiras, a partira das 13 horas, no Solar dos Presuntos, para comer bem, beber do melhor e falar do que lhe apraz. Quem são os amigalhaços? Mário Zambujal (que inventou o nome da tertúlia), Eugénio Alves, José Manuel Saraiva, Fernando Dacosta, Mário Ventura e o caxadóclos signatário desta crónica. Fátima Campos Ferreira é uma quase constante. E, cada semana, há um convidado. Apareça quando quiser.

Baptista Bastos

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