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O Fundo do Poço

Novembro 23, 2007

OPINIÃO  

Mário Negreiros

O Fundo do Poço


Com uma frequência assustadora e cada vez maior, vejo-me a pedir que chegue logo, o quanto antes, o fundo do poço. É a crença redencionista, apocalíptica, cristianíssima, de que a maldade tem que se revelar em toda a sua grandeza para que depois, só depois, nos rendamos à luz, à paz e à harmonia. E, no entanto, sendo o poço um poço, a queda sem fundo é horrível, abismal, mas a outra alternativa – o encontro com o fundo – é trágica. E fatal.

Mas não é um poço. E não tem fundo – embora possa ser trágica – e fatal. É a realidade, que sempre pode piorar. Sempre! E melhorar.

Vivi muitos anos no Rio de Janeiro, cidade que, berço da gentileza da bossa-nova e de tantas outras gentilezas, foi-se tornando, dia-a-dia, palco de violências de uma crueldade insuperável até que, na semana seguinte, outra crueldade a superasse. Pelo menos uma meia dúzia de tragédias cariocas ao longo dos anos 90 foram capazes de me convencer de que a cidade tinha chegado ao fundo do poço e que, a partir dali, só podia encontrar o caminho da luz, da paz, e da harmonia. Uma leitura rápida nos jornais cariocas de hoje (ou de ontem ou de anteontem, ou da semana passada) é o bastante para que se perceba o quão redondamente me enganava. Não há fundo. Sempre pode piorar.

E Portugal está em queda. Os portugueses estão em queda – ainda mais do que Portugal. O país tem instituições minimamente organizadas, consolidadas, bastante mais estáveis do que a vida das pessoas que o habitam. Essas, sim, estão em queda livre: cada vez mais televisão e menos música; mais carro e menos passeio; mais pressa e menos gozo; mais trabalho e menos filhos (já são raros os filhos – um desavisado que visitasse os parques e jardins de Portugal poderia pensar que os portugueses tinham deixado de fazer filhos e passado a fazer logo netos); cada vez menos pais e mais televisão (e avós, para quem tem a sorte de os ter).

O que mais será preciso para que os portugueses vejam que é concreta a sua queda e, em grande parte, reversível com movimentos de carácter meramente individual, independentes de governos, estados ou partidos? Um exemplo: não me consta que as estradas e, muito menos os carros, tenham piorado neste país. Se não são os carros nem as estradas, quem, se não os próprios portugueses, pode merecer a culpa pelo aumento das mortes nas estradas de Portugal? Claro que ao Estado cabe educar quem usa e reprimir e punir quem abusa. Mas se o Estado é que tem a culpa pelo aumento das mortes nas estradas de Portugal será pela mesma razão por que é do Estado a culpa por tudo o que de mal aconteça neste país – a nossa infantil necessidade de desresponsabilização, que, claro, exige um culpado de plantão (papel a que o Estado português – arrogante, ineficaz, etc, etc e etc, sim – se presta lindamente).

E, no entanto, se vejo algum movimento de reversão da queda geral não é naquilo que se convencionou chamar de “cidadania” (algo como “povo” mas mais sóbrio – enquanto o povo vai ao futebol, a cidadania vai passear na “Marginal sem Carros” ). Se alguns sectores da vida portuguesa tiveram os brios acesos pela crítica geral, a maior parte estará no sector público, onde se começa a ver funcionários firmemente empenhados em mostrar, pela sua postura e empenho, que há ali eficiência e respeito pelo utente.

Enquanto isso, na Net Cabo…

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