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LARGAR LASTRO

Novembro 24, 2007

Há uma diferença entre deter poder ou exercer poder. O poder apenas detido é despido de sentido útil: aproveita ao próprio mas não aos outros. Exercer o poder é uma coisa diferente, é aproveitar uma oportunidade para poder fazer coisas que são úteis para os outros. É assim na política, na vida económica ou cultural. O exercício do poder político confere a possibilidade única de transformar coisas, reformar, melhorar, romper bloqueios – é uma actividade nobre, ao contrário do que a cultura de mesa de café gosta de dizer. Conheci muitos políticos que tanto lhes fazia o lugar que ocupavam ou a capacidade de acção de que dispunham nessas funções. Limitavam-se a deter poder, para satisfação da sua própria vaidade ou para se ‘manterem em jogo’ para futuras e outras oportunidades. Mas também conheci os que apenas quiseram o poder enquanto acreditaram que dele podiam fazer um instrumento transformador para melhorar as coisas. E conheci até alguns que nunca aceitaram os cargos para que foram convidados por entenderem que o seu lugar seria inútil ou desprovido de sentido. De igual modo, o exercício do poder económico pode ser uma oportunidade para acrescentar valor às empresas, postos de trabalho, riqueza para o país. E o poder cultural, exercido criativamente, é também um serviço prestado à comunidade.

Entendido assim, o poder não tem nada de corruptor. É uma coisa fugaz, com um objectivo concreto e um espírito de missão claro. Assim que as circunstâncias mudam ou a missão está cumprida, abandona-se e vai-se fazer outra coisa. Por mais que possa custar pessoalmente, a grandeza está em largar e não em continuar agarrado ao poder. Como acontece com tantas outras situações, em determinadas alturas da vida, a sabedoria consiste em saber sair, antes que nos peçam para sair. É o que eu chamo largar lastro: abandonar o que já não serve ou não faz sentido nem bem algum e ir à procura de outra coisa, porque a vida não tem só um caminho e ninguém, mesmo, é insubstituível. Infelizmente, para certas pessoas, largar equivale como que a uma morte em vida. Pobres vidas!

Dou alguns exemplos de gente que, em áreas diferentes, não sabe largar o poder, se acha único e insubstituível e não é capaz de se retirar de cena, convencendo-se que é a vontade dos outros que os mantém atados ao leme, como dizia Fernando Pessoa, a propósito de Bartolomeu Dias.

Comecemos pelo presidente do FC Porto, Pinto da Costa. Depois de 22 anos de poder pessoal e absoluto, teve em 2004 uma oportunidade de retirada em grande que os deuses raramente concedem em casos destes. Campeão Europeu de clubes (uma proeza dificilmente repetível nas décadas seguintes), tinha acabado de inaugurar um estádio novo e lindo e vendera parte das jóias da coroa ao estrangeiro, conseguindo um encaixe financeiro também ele irrepetível e que lhe poderia ter permitido pagar logo o estádio todo ou reduzir o passivo do clube a números residuais. Se tivesse saído nessa altura, teria o Porto a seus pés, o país esmagado de admiração e roído de inveja e a eterna gratidão dos portistas. Mas, preferiu ficar, aparentemente porque não tem vida fora do clube. E o que se seguiu foi uma série de desastres e erros de gestão de toda a ordem: cinco treinadores contratados, dezenas de jogadores adquiridos, dos quais a esmagadora maioria só podem ter vindo por engano, défices astronómicos acumulados em três anos de descontrolo que rapidamente engoliram os lucros de 2004 e, finalmente, a confusão do ‘Apito Dourado’ e as vinganças da ex-primeira-dama, numa sucessão de episódios degradantes que bem poderia ter evitado. Agora, se sair e quando sair, se mandar calar por instantes os aduladores que sempre rodeiam o poder perpétuo, escutará um surpreende suspiro de alívio das bancadas.

Segue-se o caso terminal de Alberto João Jardim. Ao longo de trinta anos, venceu já vinte e não sei quantas eleições consecutivas – o que lhe garante desde logo um lugar, se não na história, pelo menos no ‘Guiness’. Ganha e governa com a mais eficaz e simples das receitas: dinheiro, muito dinheiro, dos outros. Com tanto dinheiro arrancado aos nossos bolsos, só poderia ter obra feita e que dá nas vistas, apesar de todos os desperdícios, os descaminhos e os gastos sumptuários, que convivem com zonas de miséria inexplicáveis, essas escondidas da vista e dos votos. Mas ‘tem obra feita’, como repetem sempre, muito circunspectos, os PSD. E parece que tinha também ambições políticas mais vastas e mais continentais. Mas, à força de se arrastar no poder fácil da Madeira e nas suas vitórias eleitorais de meia-tigela, queimou-as. Se hoje aqui aparecer a votos, será cilindrado (e felizmente!). Porque o que tinha de aura de fazedor acabou por se revelar à luz crua dos dinheiros sem fim que nos custa e o que, a certa altura, chegou a ter de engraçado, acabou por se tornar previsível e repetitivo, até que a audiência deixou de lhe achar graça.

Último exemplo: Jardim Gonçalves, o fundador e eterno mandante do BCP. Criou o primeiro banco privado português e logo revolucionou a banca, passando a tratar os clientes como clientes e não como suplicantes, como até aí sucedia. Fez os bancários vestirem-se de gravata, abandonando o ar de empregados de cervejaria revolucionários e ensinou-lhes a deixar de tratar os clientes com arrogância e desdém. Depois, modernizou a banca toda e fez parte de uma geração que, de facto, tornou a banca portuguesa um dos raros sectores de excelência na gestão empresarial. A certa altura, criada fama, prestígio e riqueza, ultrapassados os 70 anos de idade, usado até à exaustão cada migalha de poder que foi detendo e sempre acrescentando, anunciou a retirada e a chegada ao poder de uma nova geração. Mas era apenas um truque, para fingir que estava de fora, continuando a tudo controlar. E, quando esse controlo se tornou um obstáculo à governação do banco, em lugar de consumar de vez, e sem mais subterfúgios, a retirada, foi à luta – uma luta feia e desprestigiante – para afastar a tal nova geração que lá havia colocado e continuar a governar por interpostos representantes. Perdeu, também ele, a oportunidade de sair em beleza. Agora, as sequelas da guerra que semeou, por pura vontade de mando e vaidade, viram-se contra si, em sucessivas revelações devastadoras e de que, decerto, ainda não vimos o fundo. Os episódios do perdão de dívida e de juros, ao filho e ao aliado, são de tal maneira chocantes que só uma obstinação que já é do domínio da patologia pode ainda fazê-lo manter-se em funções, uma semana depois de a notícia do Expresso ter destruído para sempre a sua imagem de gestor rigoroso, criada ao longo de trinta anos. E tudo se agravou mais com as inacreditáveis justificações que ele e o próprio filho resolveram dar para explicar como é que o maior banco privado português atira borda fora pelo menos 22 milhões de euros em negócios de favor. Decerto que não terá perdido as qualidades que o fizeram conseguir ver antes e mais longe que muitos outros, no negócio bancário. Mas, porque assim é, ele, mais do que ninguém, deve saber que um banco vive da imagem e da credibilidade pública. E, nos últimos meses, ninguém, mais do que o eng.º Jardim Gonçalves, se tem dedicado afanosamente a destruí-las.

Por MIGUEL SOUSA TAVARES

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