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Conhecimento, de novo o desafio português

Dezembro 17, 2007

Nós, os portugueses, podemos dizer com orgulho que promovemos a globalização muito antes do termo entrar na vox populi. Os Descobrimentos quinhentistas aproximaram o mundo e inauguraram a competitividade à escala do globo. Competitividade essa que, tal como nos dias de hoje, não assentava apenas em bens e serviços, mas também em capital humano e no conhecimento técnico.

Basta lembrar Fernão de Magalhães que, descontente por não ter obtido de D. Manuel I uma recompensa a que se julgava com direito, foi oferecer os seus serviços a Carlos V da Alemanha e I de Espanha. O imperador confiou, então, ao navegador português uma frota de cinco caravelas, permitindo, assim, que fosse empreendida a primeira viagem de circumnavegação realizada no globo. Já para não falar da tese da origem portuguesa de Cristóvão Colombo, que ofereceu, igualmente, os seus serviços à coroa espanhola e acabou por descobrir a América.

Mas tudo isto serve para dizer que, já nos séculos XV e XVI, o capital humano era determinante para o progresso das nações e a sua mobilidade gerava a partilha de conhecimentos no mundo. As nações mais poderosas eram as que detinham o saber personalizado, neste caso, por navegadores, matemáticos e cosmógrafos. E foi a mobilidade desses especialistas das artes e das técnicas navais que permitiu, por um lado, a disseminação do conhecimento técnico e, por outro, o contacto com realidades culturais fora da Europa.

Ontem como hoje, o progresso económico das nações resultava, essencialmente, do domínio do saber e da sua aplicação às necessidades do Homem. Certo. Mas terá sido sempre assim? Nem sempre. Até há pouco tempo, outras varáveis de negócio rivalizavam em importância com o conhecimento. Falo, por exemplo, da posse de recursos naturais, das vantagens da localização e do acesso a mão-de-obra barata. Tudo variáveis que, nesta transição da sociedade industrial para a sociedade do conhecimento, perderam relevância face ao imperativo da qualificação humana, da inovação, da investigação científica e do desenvolvimento tecnológico – algo que, no seu conjunto, podemos designar por conhecimento em sentido lato.

Em traços gerais, a criação de empresas resulta do trinómio atitude-capital-conhecimento. A atitude tem origem nas características idiossincráticas do indivíduo, como a iniciativa própria, a coragem para assumir riscos, a capacidade de decisão e o sentido de oportunidade. O capital, pelo contrário, já não depende tanto do perfil do promotor do negócio, mas sim da adequação do projecto empresarial às necessidades do mercado. Ou seja, se um determinado produto ou serviço for pertinente à luz da lógica de mercado, então o respectivo projecto empresarial terá fortes possibilidades de ser financiado pelos diversos instrumentos existentes.

Já o conhecimento, por seu turno, tem uma natureza diferente tanto da atitude como do capital, embora seja transversal a estes dois factores. O conhecimento é percepção, intuição, raciocínio, compreensão, mas também dúvida, incerteza, expectativa e procura. Neste sentido, influencia quer a atitude perante os negócios, quer a capacidade para elaborar projectos empresariais viáveis. Do conhecimento, e em concreto da sua conversão em valor empresarial, depende o futuro das empresas, cuja competitividade resulta, cada vez mais, da compreensão das características e necessidades do ambiente competitivo; da criação permanente de novos produtos, serviços, processos produtivos e sistemas de gestão; e da criatividade, capacidade de aprendizagem e aptidão para as novas tecnologias que o capital humano demonstre.

Esta realidade conduz-nos a um dos mais graves problemas do empreendedorismo português: o défice de qualificação da maioria dos seus protagonistas. Segundo dados recentes do Observatório da Criação de Empresas do IAPMEI (baseados nos inquéritos recolhidos pelos CFE, em 2006, respeitantes a 1084 sociedades e 1748 empresários), 71,3% dos empreendedores portugueses conta apenas com o ensino secundário entre as suas habilitações literárias. Só 22,6% dos empreendedores são licenciados e mais 6,1% têm, para além disso, uma pós-graduação, mestrado ou doutoramento.

Ora, hoje quem se aventura na criação e gestão de empresas necessita de ter qualificações compatíveis com a Economia do Conhecimento, o que significa capacidade de inovação, domínio das TIC e do inglês enquanto língua franca, competências ao nível da I&D e consciência das responsabilidades sociais a que a actividade empresarial obriga. Neste sentido, o empreendedorismo não pode continuar a ser praticado em Portugal de forma naïf. Ou seja, para se ser empreendedor, já não basta ter boas ideias e voluntarismo em doses generosas.

Por isso, importa ter como desígnio nacional a promoção do empreendedorismo qualificado, tal como está, de resto, plasmado na Agenda de Lisboa. É, aliás, por este upgrade do empreendedorismo que a ANJE se tem batido, depois de todo o trabalho desenvolvimento, durante anos, no campo da sensibilização para uma cultura de risco e de iniciativa junto da juventude portuguesa. Só com um empreendedorismo qualificado, Portugal deixará de ser um país de mão-de-obra barata e produtos de baixo perfil tecnológico, para se assumir como um país de capital humano, capaz de operar no topo da cadeia de valor e em áreas de ponta, muitas vezes à escala global e com elevados níveis de competitividade. (JN)

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